quinta-feira, 30 de junho de 2016




As memórias são facturas em teu nome 
 sei que o adeus tem os seus rituais e o teu 
 é deixar-me vazia a despensa dos sonhos

 às vezes pergunto o que fizemos mal 
 vou enviar-te flores todos os outonos podes vir 
 pelas facturas pelo menos as da luz

estou às escuras por causa dos teus rituais 






 Pablo García Casado
 (Foto de Laura Makabresku)

terça-feira, 28 de junho de 2016





Junho chegara ao fim, a magoada
 luz dos jacarandás, que me pousava
 nos ombros, era agora o que tinha 
 para repartir contigo, 
 e um coração desmantelado
 que só aos gatos servirá de abrigo 






 Eugénio de Andrade
 (Foto de Mariam Sitchinava)

segunda-feira, 27 de junho de 2016

sábado, 25 de junho de 2016




Cose-te: brilhas 
 nas cicatrizes 






 Herberto Helder
 (Foto de Laura Makabresku)

quarta-feira, 22 de junho de 2016




E enquanto espero que me arranjem o esquentador 
penso em como será a vida depois do sol explodir 






 Filipe Homem Fonseca

terça-feira, 21 de junho de 2016




Mas a ti quero olhar-te até estares longe do meu medo, 
como um pássaro no limite afiado da noite





 Alejandra Pizarnik

segunda-feira, 20 de junho de 2016




Esta noite preciso de outro verão sobre a boca 
 crescendo nem que seja de rastos. 





 Eugénio de Andrade
 (Foto de Nishe)

domingo, 19 de junho de 2016




O meu amor não tem
 importância nenhuma. 
Não tem o peso nem 
de uma rosa de espuma!
 Desfolha-se por quem? 
Para quem se perfuma? 
 O meu amor não tem 
importância nenhuma. 






 Cecília Meireles

sexta-feira, 17 de junho de 2016




Foste tu que me mataste
 à beira do teu peito 
entregue 
à palma acetinada da tua mão 
assassina






 Maria Teresa Horta

quarta-feira, 15 de junho de 2016




já tive mais medo
 infinitamente mais 
os dias rasgando
 caminhos perversos 
confluentes, 
já fui outras mulheres
 nenhuma como esta
 e todas me surgem 
estranhas e distantes 
e até mesmo esta não
 me coincide não me é 
 [eu temo-te, ela não]. 






 Sarah Adamopoulos
 (Foto de katia Chausheva)

terça-feira, 14 de junho de 2016




Com lento amor olhava os dispersos 
Tons da tarde. A ela comprazia 
Perder-se na complexa melodia 
Ou na curiosa vida dos versos. 
Não o rubro elemental mas os cinzentos 
Fiaram seu destino delicado, 
Feito a discriminar e exercitado 
Na vacilação e nos matizes.
 Sem se atrever a andar neste perplexo 
Labirinto, olhava lá de fora 
As formas, o tumulto e a carreira, 
Como aquela outra dama do espelho. 
Deuses que habitam para lá do rogo 
Abandonaram-na a esse tigre, o Fogo. 





 Jorge Luís Borges
 (Foto de Natalia Drepina)

segunda-feira, 13 de junho de 2016

a noite passada




pela fresta aberta o meu peito fugiu










Dou-te, como desde sempre, o poder 
 De escreveres na pele da minha mão
 As promessas que te fiz 






Daniel Faria

sábado, 11 de junho de 2016




Perder uma fotografia 
é perder 
um momento
 duas vezes






 Daniel Jonas
 (Foto de René Groebli)

sexta-feira, 10 de junho de 2016




Tanto de meu estado me acho incerto, 
 Que, em vivo ardor, tremendo estou de frio 





 Luís de Camões

quinta-feira, 9 de junho de 2016




Então fechava os olhos para só haver noite 
e ouvir o sopro do sonho
 na luz imperfeita. 






 José Gomes Ferreira
 (Foto de Laura Makabresku)

terça-feira, 7 de junho de 2016




Ontem à noite, depois da sua partida definitiva, 
fui para aquela sala do rés-do-chão que dá para o parque, 
fui para ali onde fico sempre no mês de junho, 
esse mês que inaugura o Inverno. 
 Tinha varrido a casa, 
tinha limpo tudo como se fosse antes do meu funeral. 
 Estava tudo depurado de vida, 
isento, 
vazio de sinais, e depois disse para comigo: 
vou começar a escrever
 para me curar da mentira de um amor que acaba. 
 Tinha lavado as minhas coisas, 
quatro coisas, 
estava tudo limpo, o meu corpo, o meu cabelo, a minha roupa, 
e também aquilo que encerrava o todo, 
o corpo e a roupa, 
estes quartos, 
esta casa, 
este parque.

 E depois comecei a escrever... 






 Marguerite Duras (Textos Secretos)

domingo, 5 de junho de 2016




esta noite dormi vestida e tive frio, um frio 
feito de tudo com que atulhámos a distância. 






Rosa Alice Branco

sexta-feira, 3 de junho de 2016




o meu relógio de amar parou em cima da mesa 






 Mário Cesariny

quarta-feira, 1 de junho de 2016




ao meio da noite às vezes desamparadamente
 acordas, não acordas: 
tão distante do mundo que o não tocas, 
tão distante do socorro do mundo que não existe ninguém em 
quem toques 






 Herberto Helder (Letra Aberta)
 (Foto de René Groebli)