quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O meu nome


Eu sei que só tu sabes o meu nome
tentar sabê-lo foi afinal o único
esforço importante da minha vida
Sinto-me olhado e não tenho mais ser
que ser visto por ti. Há no meu ombro lugar
para o teu cansaço e a minha altura é para ser medida
palmo a palmo pela tua mão ferida



Ruy Belo

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Talvez palavras


Leves sulcos na dureza da pele. Talvez palavras.
Sob as pedras negras jazem palavras. Possuem a intensidade da luz de uma estrela morta há milhões de anos.
Fica sempre qualquer coisa por dizer. Por fazer. E nunca sei a diferença entre uma outra indecisão.
 


Carlos Alberto Machado

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Mais um dia


Não é fácil ser poeta a tempo inteiro.
Eu, por exemplo, nem cinco minutos por dia,
pois levanto-me tarde e primeiro há que lavar
os dentes, suportar os incisivos
à face do espelho, pentear a cabeça e depois,
a poeira que caminha, o massacre dos culpados,
assistir de olhos frios à refrega dos centauros.
Chegar por fim a casa para a prosa
de uma carne à jardineira, o estrondo
das notícias, a louça por quebrar. Concluindo,
só por volta das duas da manhã começo a despir
o fato de macaco, a deixar as imagens correr,
simulacro do desastre.
Mas entretanto já é hora de dormir.
Mais um dia de estrume para roseira nenhuma.


José Miguel Silva

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Ainda não


Ainda não
não há dinheiro para partir de vez
não há espaço de mais para ficar
ainda não se pode abrir uma veia
e morrer antes de alguém chegar
ainda não há uma flor na boca
para os poetas que estão aqui de passagem
e outra escarlate na alma
para os postos à margem
ainda não há nada no pulmão direito
ainda não se respira como devia ser
ainda não é por isso que choramos às vezes
e que outras somos heróis a valer
ainda não é a pátria que é uma maçada
nem estar deste lado que custa a cabeça
ainda não há uma escada e outra escada depois
para descer à frente de quem quer que desça
ainda não há camas só para pesadelos
ainda não se ama só no chão
ainda não há uma granada
ainda não há um coração



António José Forte

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Asas


Não sei sobre pássaros,
não conheço a história do fogo.
Mas creio que a minha solidão deveria ter asas.



Alejandra Pizarnik

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Dos dias


Naquele dia choveu ao contrário
a chuva fina e o seu silvo subiam do chão
e eu caindo da janela
sem um raio de sol que me amparasse



Miguel Martins

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Problemas de Geografia Pessoal


Nunca sei despedir-me de ti, fico sempre
com o frio de alguma palavra que não disse,
com um mal-entendido a recear,
o vazio de torpe inexistência
que às vezes, gota a gota, se converte
em desesperação.
Nunca sei despedir-me de ti, porque não sou
o que em viagem passa pela gente,
o que vai de aeroporto em aeroporto,
o que olha os automóveis em direcção contrária,
indo para a cidade
onde acabas de chegar.
Nunca sei despedir-me, porque sou
um cego que tenteia pelo túnel
das tuas mãos e lábios quando dizem adeus,
um cego que tropeça nos mal-entendidos
e com essas palavras
que não se sabe articular.
Desterrado do amor,
nunca posso afastar-me de tudo quanto és.
Num vazio de torpe inexistência
vou-me de mim
a caminho do nada.



Luis García Montero

sábado, 16 de fevereiro de 2013

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Sofro de vertigens

 

 
Conservei-me afastada do estendal durante algum tempo. Sofro de vertigens, por isso intimidava-me olhar para baixo, o pátio vazio, restos de flores secas. Um prédio com dez andares e ele tinha logo que viver no último, tendo como horizonte o mar de terraços e antenas parabólicas. Quando, chegado com a roupa da máquina de lavar, pega em mim, de suas mãos eu deslizo para o chão. Apressado, em vez de me apanhar imediatamente, escolhe outra; no final, atira-me para o cesto de verga. Não é que seja particularmente ardilosa, mas verdade seja dita, preferia ser mola de rés-do-chão, dessas que faça sol ou chuva sempre prendem a roupa numa corda estendida no pátio. O destino quis-me feita de plástico, com um coração inclinado à melancolia. Tenho, no entanto, como divisa antes quebrar que torcer. Sonho com o dia em que nas mãos da criança serei um comboio.


 
Jorge Gomes Miranda

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Nomear-te


Não o poema da tua ausência,
Apenas um desenho, uma fresta num muro,
Algo no vento, um sabor amargo


Alejandra Pizarnik

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Então quem sou eu?


Digam-me isso primeiro,
e depois,
se eu gostar de ser essa pessoa,
eu subo;
senão,
fico cá em baixo
até ser outra pessoa qualquer.


  Lewis Carrol

sábado, 9 de fevereiro de 2013

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Fogo posto


E crepitam-me as pontas dos dedos ao supor-te no escuro.
Queimavas-me junto às unhas.
E a queimadura subia por antebraço, braço,
ao coração sacudido. Eu - perfumado
e queimado por dentro: um laço feito de odor
transposto, ar fosforescendo, uma árvore
banhada
nocturnamente. Tudo em mim trazido
súbito
  para o meio.



Herberto Helder

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O canto que rasga a noite



Aquela mulher que rasga a noite
com o seu canto de espera
não canta
Abre a boca
e solta os pássaros
que lhe povoam a garganta


Ana Paula Tavares

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Ou num poema


Deveriam ter-se conhecido
em algum ponto morto da história,
nesse país de sonho, navegando
pela mente de Deus ou num poema.
Ela, cheia de flores e pela água,
ela própria uma flor extravagante
cujo aroma desterra a sensatez.
Ele contempla absorto sobre o branco
impoluto da neve como caem
as pétalas vermelhas de outra flor.


Amalia Bautista

domingo, 3 de fevereiro de 2013

É domingo


dizes-me que a cama do teu quarto
está por fazer que saíste e todas
as lojas estavam fechadas hoje
 
é domingo que ontem sábado dissemos
muitas coisas muito amor gin beijos
se terei um pouco de pão ou de ternura
 
para te emprestar


Pablo Garcia Casado

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013