terça-feira, 26 de junho de 2012




Ninguém me disse


Ninguém me dissera que os incêndios são homens a arder no interior das suas memórias com as mãos nas têmporas e demónios à volta da mesa.
Ninguém me falara da roseira que houve no jardim, já a morte induzia a intempérie contra o meu corpo parado.
Ninguém me explicara que se sobrevive sem útero na margem dos dias.

José Rui Teixeira

domingo, 24 de junho de 2012

E eu nunca te alcanço


De que serviu ir correr mundo, arrastar, de cidade em cidade, um amor que pesava mais do que mil malas; mostrar a mil homens o teu nome escrito em mil alfabetos e uma estampa do teu rosto que eu julgava feliz? De que me serviu recusar esses mil homens, e os outros mil que fizeram de tudo para eu parar, mil vezes me penteando as pregas do vestido ... cansado de viagens, ou dizendo o seu nome tão bonito em mil línguas que eu nunca entenderia? Porque era apenas atrás de ti que eu corria o mundo, era com a tua voz nos meus ouvidos que eu arrastava o fardo do amor de cidade em cidade, o teu nome nos meus lábios de cidade em cidade, o teu rosto nos meus olhos durante toda a viagem,
mas tu partias sempre na véspera de eu chegar.


Maria do Rosário Pedreira

sábado, 23 de junho de 2012

Essa vertigem


Podia esquecer-te para sempre, não fora a vertigem
da tua sombra a cercar os meus olhos.


Graça Pires

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Poemas perfeitos em noites escuras


Aqui o mar é sono perpétuo,
  câmara para o mais terrível segredo.
Entro nele de mãos trémulas, certo
das minhas cedências. Recordo o sabor
salino de outras perdas, casas tombadas
das quais sou solitária ruína.
Eu, que tenho dado à insónia,
embebo-me agora nas águas de outro dialecto
- as palavras falham, e essa é a comunicação.

Vasco Gato

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Talvez


Talvez nem tenha nome. Anunciado só pelo frémito da folhagem. O riso invisível, o grito de um pássaro, o escuro da voz. Certa doçura, certa violência. O espesso, volúvel tecido da noite agora a roçar o corpo da água. E por fim a muito lenta paixão do fogo, sufocada.
Era o verão.


Eugénio de Andrade

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Livro antigo


Violetas secas entre páginas de livros
  onde em tempos anunciaram o amargor da noite
e a humidade tremenda das insónias
  o mar
  o mar ao longe
debruça-se então para o interior do livro
  lê qualquer coisa sobre o coração dos líquenes
ou deambula de sílaba em sílaba onde
  os dedos se mancham de tinta e no cérebro
ergue-se uma planta de cinza noite adiante
  fechou o livro ao amanhecer
  era como se tivesse envelhecido séculos
  com as violetas
fecha a persiana e adormece

Al Berto

quinta-feira, 14 de junho de 2012

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Uma confidência


A pele espera nas coisas a carícia do uso
como o cão anseia pelo dono.
O bordo do copo, os dentes do garfo.
Usurpar os lábios entreabertos
com a alma útil e desinteressada.
Um gole de. Faz-se tarde.
O vinho faz esquecer a pele do copo.
Porque tocar (pensa ela)
é uma confidência nocturna.
Lá fora as flores. As sebes.
O ressumar de amantes no cálice.
Toco-te com mãos alheias:
eis toda a confidência de que sou capaz.
Um vestido de seda a abrir na minha perna:
um osso para te fazer correr:
um ganido de amor à porta do prédio.


Rosa Alice Branco

terça-feira, 12 de junho de 2012

segunda-feira, 11 de junho de 2012

A noite ilumina-se



Para onde quer que nos voltemos na tempestade de rosas,
  a noite ilumina-se de espinhos, e o trovão
  da folhagem, antes tão leve nos arbustos,
  segue-nos agora de perto.
  Onde quer que se apague o incêndio das rosas,
  a chuva inunda-nos o rio. Oh, noite tão distante!
  Mas uma folha que nos encontrou é levada pelas ondas
  e segue-nos até à foz.

  Ingeborg Bachmann

domingo, 10 de junho de 2012

Dentro de nós


Apaga a luz quando entrares e
vem ver se em mim
ainda se cheira o mar,
rossio sagrado
onde as fadas tecem as tuas mãos
lacra com o teu corpo
esta ferida aberta, frágil trincheira
que transpões, como o primeiro canto
descortina as trevas
repara que dentro de nós já é manhã.


Renata Correia Botelho

Gosto



segunda-feira, 4 de junho de 2012

Sou eu


São as minhas mãos que tremem até não poder segurar os talheres
sou eu sentado na cama, transido de medo de acordar para viver
sou eu a vomitar de medo como desde os tempos da escola primária
sou eu a driblar o futuro, acabando por sair pela linha lateral
sou eu agora em espasmos, assemelhando-me a um campo de minas
sou eu agarrando-me aos poucos que me disseram alguma coisa
eu tentando não cair, não sabendo como vim parar a esta copa
sou eu com a morte nos olhos que trago dentro dos meus olhos
eu, fidelíssimo traidor, não entendendo porque me achei só
eu a fugir de encontrar-me e sempre na exaustão de me encontrar
eu em cada vivo, em cada morto, em cada esquina da cidade
sou eu não conseguindo adormecer e, adormecendo, não dormindo
sou eu sem saber fugir a uma luxúria que jamais me faz feliz
eu a habitar um corpo doloroso, como semáforo amarelo
eu vendo outra coisa em cada coisa e em tudo palavras de papel
eu carregando o peso do passado sobre um futuro inexorável
eu mais mortal que os mortais e defrontando a imortalidade
sou eu com a cara e a alma à venda nos escaparates insensíveis
eu pedindo esmola a quem despreza o que lhe posso dar
sou eu rindo-me de mim para evitar chorar por tudo o mais
sou eu irremediavelmente sozinho para toda a eternidade
sou eu sem música de fundo, vendo-me num espelho desbotado
sou eu a fumar como se me defumasse para me poder comer
sou eu silenciando um grito por minuto e escrevendo no mel
eu vestindo toda esta nudez, só para só amar a verdade do amor
e se isto é difícil de entender, dizendo-te outra coisa não seria eu.

Miguel Martins

sexta-feira, 1 de junho de 2012

A infância


Era a minha altura. Um livro em cima da cabeça marcava o lugar que um lápis semestralmente riscava na parede da cozinha. A única sabedoria dos ossos, crescerem como a teia sólida de um propósito e a anatomia mais transparente. Centímetro a centímetro espigava o corpo imaginário, essa contabilidade que era assim, íntima, pictórica, como uma cena burguesa. Traço a traço a parede da cozinha tornou-se rupestre, a infância uma ternura assustadora. Esta era a minha altura.
Agora sou tão mais alto e mais pequeno


Pedro Mexia