quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O primeiro frio


é este o sofrimento do Outono
o primeiro frio e a flor adiada
para um tempo que já não há-de
ser meu




Rosa Alice Branco

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Noites longas

 

diz-me um segredo
mantém-me acordada
enquanto esta noite não chega ao fim




Dulce Maria Cardoso

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Morada


Tenho as coisas escritas
no peito, o teu nome. Nada tem que ver
com o coração, muito menos com sentimentos.
O teu nome está-me escrito nos sinais, sobre a pele.
A tinta, desenhos de círculos castanhos
assinalando lugares.
O meu mapa genético tem uma única localidade.
Dizer o nome dela é chamar-te.
Chamar-te é encontrar a minha morada.




Inês Fonseca Santos

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Desculpas

 

Eu conheço uma música frágil como a chuva ou as lágrimas evitadas. É uma música que ouço muitas vezes enquanto escrevo ou leio, ou que ecoa dentro de mim enquanto leio o que escrevi. Cada vez que a ouço, que percorro o teclado infindável do piano onde me refugio, esqueço-me do que escrevi e leio as lágrimas que não chorei sulcadas no meu rosto, à espera que chovesse. Que me lembre, é uma música onde tu não estás. Uma música que se calhar não existe, ou não existe assim, e não passa de uma desajeitada desculpa para finalmente poder chorar.




Jorge Fallorca

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Ligeiras confidências


o dia corre de poente para nascente, a chuva
é um lençol tenso sobre os velhos que separam
as lembranças, com palavras que não chegam
a dizer: esquecem os subterfúgios do tempo
e avançam cambaleantes pelas grandes fissuras
entregues ao despovoamento alucinante
no interior dos carros, os crimes
são ligeiras confidências




Rui Nunes

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Iminência


E o cais cinzento e as casas vermelhas
E não é ainda a solidão.
E os olhos veem um quadrado negro com um círculo de música lilás no seu centro
E o jardim das delícias apenas existe fora dos jardins
E a solidão é não poder dizê-la.
E o cais cinzento e as casas vermelhas.




  Alejandra Pizarnik

domingo, 20 de outubro de 2013

sábado, 19 de outubro de 2013

Poemas perfeitos em noites escuras




não muito longe nessa cidade com os seus milhares
de encontros ás cegas houve também outras noites
como esta ao voltar para casa - os caminhos
mortos do regresso as mesmas perguntas-
e é que apesar do amor dos braços
e das pernas abertas a solidão regressa
com as suas dúvidas





Pablo Garcia Casado (traduzido por Joaquim Manuel Magalhães)

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Previsão do estado do corpo para hoje


Pressinto um dia estranho, no que diz respeito ás coisas do coração.
Pressinto que chove, algures dentro do sangue
 



Al Berto

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Dores


Às dores inventadas
Prefere as reais
Doem muito menos
Ou então muito mais




Alexandre O’Neil

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Noite dentro




 

Paisagem


Tudo vem ao chamamento.
 Digo mar, e o mar desponta na palma das mãos.
Digo cal, e na pele abre-se um sulco branco.
 Digo sol, e quase lhe consigo tocar.
  Só por ti chamo e não irrompes do azul.




Al Berto

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Entre duas mãos


Podia ser aí. Contigo. Com o teu corpo
ainda nu, ou vestido da luz que entra pelas
persianas velhas, trazendo a tremura
das folhas na trepadeira do quintal.
Podia ser de manhã, ou de madrugada,
sabendo que teria de te abraçar para que não
desses pelo frio, com o quarto ainda
húmido da noite, num fim de outono.
Podia não ter sido nunca, se não fossem
assim as coisas: a tua mão ao encontro da
minha, no tampo da mesa, como se fosse
aí que tudo se jogasse, entre duas mãos.




Nuno Júdice

sábado, 12 de outubro de 2013

Calendário das dificuldades diárias


Todas as manhãs, entre o enfiar
do sapato esquerdo e do sapato direito
(...) vê a vida desfilar-lhe diante dos olhos.
Por vezes só a custo consegue
calçar o sapato direito.




Judith Herzberg

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Alice


Não vejo ninguém na estrada! Disse Alice.
- Quem me dera ter uns olhos como os teus. Observou o Rei, num tom de mau humor
- Consegues ver ninguém! E ainda por cima a uma distância destas!
 Olha que já é bom eu conseguir ver alguém com esta luz!





                                                               
Lewis Carroll

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

E se o Nobel fosse um poeta

 


A poesia está guardada nas palavras - é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre
as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.




Manoel de Barros

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Isto é ela


Mais nenhuma foto, de certeza que há suficientes. Mais nenhuma sombra de mim atirada pela luz para pedaços de papel, para quadrados de plástico. Mais nenhuns dos meus olhos, bocas, narizes, humores, maus ângulos. Mais nenhuns bocejos, dentes, rugas. Eu sofro da minha própria multiplicidade. Duas ou três imagens teriam sido suficientes ou quatro ou cinco. Isso teria permitido uma ideia firme. Isto é ela. Assim, sou aguada, enrugo, de momento em momento dissolvo-me nos meus outros eus. Vira a página: tu, a olhar, estás novamente confuso. Conheces-me bem demais para me conhecer.
 Ou, não bem demais: a mais.




Margaret Atwood

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Perguntas e respostas


Eu sempre perguntava coisas tontas,
é certo. Perguntava, por exemplo,
se voltarias a amar-me tanto
como nos dias do amor mais jovem,
ou mesmo mais, ou mesmo mais que nunca,
mesmo mais que a ninguém, e se serias
capaz de confessá-lo ante qualquer.
É certo, perguntava coisas tontas,
não merecia uma resposta séria.
Aquele ser, mais escuro que a noite
mais escura da alma, respondia
sem olhar-me nos olhos: «Nunca mais.»




Amalia Bautista

domingo, 6 de outubro de 2013

Domingo


Primeiro foi o bule,
de seguida foi a asa.
Que mais irás quebrar.
Não sei o que fazer com o teu sim,
o teu não, o teu
passa-me o açúcar.
A distância dos teus olhos não a sei
abreviar, o latido dos teus sonhos
não me deixa adormecer.
Gostava de te amar um pouco menos,
de voltar ao meu rebanho
de feridas e sopores,
regressar ao rijo barro dos Domingos
em que não te conhecia,
ao supor de suas tardes
Quando ainda não sabia
Da dureza do cimento, nem dos modos
De quebrar e ser quebrado.




José Miguel Silva

terça-feira, 1 de outubro de 2013

A música sobre a noite

 
 
 
 

A noite sobre a pele

 

Diz-me palavras bonitas, diz-me que eu sou o teu barco e a tua viagem, a tua noite sobre a minha pele,
 o teu olhar na vertigem das mãos. o cigarro que arde no escuro dos espelhos,
o pedaço de laranja que me ofereçes , boca a boca...
 



Al Berto