domingo, 31 de julho de 2016

A solidão é um luxo




Fiquei sozinha um domingo inteiro. Não telefonei para ninguém e ninguém me telefonou. Estava totalmente só. Fiquei sentada num sofá com o pensamento livre. Mas no decorrer desse dia até a hora de dormir tive umas três vezes um súbito reconhecimento de mim mesma e do mundo que me assombrou e me fez mergulhar em profundezas obscuras de onde saí para uma luz de ouro. 
Era o encontro do eu com o eu. A solidão é um luxo





Clarice Lispector

sábado, 30 de julho de 2016




Falam-me de sunsets á beira mar. de bebidas com nomes estranhos. de musicas que nunca ouvi. 
Eu sento-me aqui á espera que o meu sol se ponha e escuto Piazzolla. 
Como dizia Clarice, a solidão pode ser um luxo













quinta-feira, 28 de julho de 2016




Não estás aqui. Nem na minha vida, nem no meu sonho. Não estás nem no que eu amo nem no que eu quero. E nem no que eu preciso. E nem no que eu odeio. Não estás, sequer, entre as coisas que me são indiferentes. Simplesmente não estás. Nem és. Nem poderás ser alguma vez. Sendo assim, és apenas o que não és. Logo, não existes, não contas, não respiras, não vives.E não serás recordação. Não haverá memória de ti, apenas memória da tua não presença, de uma luz que nunca se acendeu, de um rio que não tem água, de um recado que não tem palavras, de um filme que não tem imagens. E ainda assim falo de ti. Ainda assim, faço de conta que existes, fantasma do meu texto, espírito do nada que me escreves quando escrevo. Inexistência do que é. Certeza de tudo o que é incerto. Sentimento do que não pode ser sentido. 






 Joaquim Pessoa
 (Foto de Ezgi Polat)

terça-feira, 26 de julho de 2016




Uma demora lenta nas palavras
 um calor bom na palma das mãos
 uma maneira de gostar das pessoas e das coisas 
sem tolher movimentos ou forçar as superfícies 
beber aos golinhos o café a ferver
 ou o whisky chocalhado com pedrinhas de gelo 
viver viver roçando as coisas ao de leve 
sem poupar o veludo das mãos e do corpo 
sem regatear o amor à flor da pele
 olhar em torno de si perdida ou esperar o verão
 e saber de um saber obscuro que o calor 
todo o calor é de mais dentro que vem 






 Rui Caeiro
(Foto de Laura Makabresku)

segunda-feira, 25 de julho de 2016




por un minuto de vida breve
 única de ojos abiertos
 por un minuto de ver 
en el cerebro flores pequeñas 
danzando como palabras en la boca de un mudo 






 Alejandra Pizarnik
(Foto de Natalia Drepina)

sexta-feira, 22 de julho de 2016




Casas são rosas 
para cheirar muito cedo, ou à noite, quando a esperança
 nos abandona para sempre. 






Herberto Helder
 (Foto de Nishe)

quarta-feira, 20 de julho de 2016




Todas as flores
 caíram com este vento
 que soprou de noite. 
O que haverá amanhã 
para servir de consolo?






 Isumi Shikibu
 (Foto de Anna O)

segunda-feira, 18 de julho de 2016










o calor dos dias




Eras mesmo a fonte de tudo, pelo menos
 naquele dia a que chamámos perfeito. 
Os dias tinham-se entranhado nos dias, 
a tal ponto que a vida era só dias, dias 
a seguir uns aos outros. Apenas dias. 
De olhos vendados e sem bater numa única
 parede, pegados a isto, ao cheiro reconhecido 
só quando um dos corpos se afasta. 
Sente-se a falta, eu farejo como um cão
 e depois sento-me triste a um canto 
com um livro na mão. Mas naquele dia 
que ambos classificámos de perfeito 
eu pude ver a vida ali desdobrada em duas
 à minha frente. E a tua inocência poderosa
 a dizer-me uma vez sem exemplo faz
 de mim o que quiseres, dobra o cabo
 dos trabalhos e atira-te de cabeça. 






 Helder Moura Pereira

sábado, 16 de julho de 2016




Sou fiel ao ardor, 
amo esta espécie de verão
 que de longe me vem morrer às mãos, 
e juro que ao fazer da palavra 
morada do silêncio 
não há outra razão 






 Eugénio de Andrade
 (Foto de Ezgi Polat)

quinta-feira, 14 de julho de 2016




se quiseres uma destas noites
 agarra no telefone e fala-me em silêncio
 para te ouvir
 para te dizer "shhh" 
para chorar de novo com as tuas lágrimas 
até adormeceres 






 Fernando Pinto do Amaral

terça-feira, 12 de julho de 2016




Para quê 
querer incendiar os astros se, dentro de nós, 
ainda não acendemos todas as luzes






 Rui Knopfli
 (Foto de Mariam Sitchinava)

segunda-feira, 11 de julho de 2016







Pouco a pouco fomos descobrindo
 como se põe sal por cima do silêncio
 e água por trás das palavras.

E preferimos calar para dizer a ausência. 
E preferimos dizer para temperar a calma. 

Mas o amor. 
O amor cru.

E já não soubemos que fazer
 com o deserto, 
com os sinais, 
com a sede. 






 Valeria Pariso (Trad. A.M.)
  Foto de (Laura Makabresku)

sexta-feira, 8 de julho de 2016




Vê se há mensagens 
no gravador de chamadas; 
rega as roseiras; 
as chaves estão
 na mesa do telefone; 
traz o meu 
caderno de apontamentos
 (o de folhas 
sem linhas, as linhas distraem-me).
Não digas nada 
a ninguém, 
o tempo, agora, 
é de poucas palavras, 
e de ainda menos sentido. 






 Manuel António Pina
 (Foto de Ezgi Polat)

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Pusemos tanto azul nessa distância




e ficamos nas paredes do vento 
 a escorrer para tudo o que ele invade






 Natália Correia
 (Foto de Ezgi Polat)

domingo, 3 de julho de 2016




Está na cozinha, a sopa ao lume, os pratos na 
 mesa, talheres para dois, como se ele viesse. Hoje. 
 Ele não volta, anda embarcado há muitos anos num 
 navio com sal e ferrugem nos porões. Mas ela espera, 
 sabe que ele pode chegar a qualquer momento. Às 
 vezes espreita a telenovela ou as ervas a crescer junto 
 ao muro do quintal. No resto do tempo, faz e desfaz 
o mesmo naperon, para enganar as horas, o frio, 
 a solidão e um corpo esquecido do que é o amor. 






 José Mário Silva

sábado, 2 de julho de 2016




Belo é o silêncio da noite. 
Na planície negra 
Encontramo-nos com pastores e estrelas brancas 






 Georg Trakl