quinta-feira, 29 de abril de 2010

Deita-te comigo


Entre os teus lábios é que a loucura acode, desce à garganta, invade a água.
No teu peito é que o pólen do fogo se junta à nascente, alastra na sombra.
Nos teus flancos é que a fonte começa a ser rio de abelhas, rumor de tigre.
Da cintura aos joelhos é que a areia queima, o sol é secreto, cego o silêncio.
Deita-te comigo. Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios toda a música é minha.



Eugénio de Andrade

Do que se vê


Põe uma escada e sobe ao cimo do que vês
Daniel Faria

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Noites assim

Adormeço contigo.
A dor meço sem ti.

João Gaspar

Volta até mim

Volta até mim no silêncio da noite
a tua voz que eu amo, e as tuas palavras
que eu não esqueço. Volta até mim
para que a tua ausência não embacie
o vidro da memória, nem o transforme
no espelho baço dos meus olhos. Volta
com os teus lábios cujo beijo sonhei num estuário
vestido com a mortalha da névoa; e traz
contigo a maré da manhã com que
todos os náufragos sonharam.

Nuno Júdice

terça-feira, 27 de abril de 2010

Daquele modo

Sobre o teu corpo caio
daquele modo que o verão tem de espalhar os
cabelos
na água esparsa dos dias
e faz das peónias uma chuva de oiro
ou a mais incestuosa das carícias.



Eugénio de Andrade

Fica


Porque curiosamente, onde menos te encontro é onde tu exististe. Desprendeste-te donde estiveste e é em mim que mais me acontece tu estares. Mas nem sempre. Quantos dias se passam sem tu apareceres. E às vezes penso é bom que assim seja para eu aprender a estar só. Mas de outras vezes tu rompes-me pela vida dentro e eu quase sufoco da tua presença. Ouço-te dizer o meu nome e eu corro ao teu encontro e digo-te vai-te, vai-te embora. Por favor. E eu sinto-me logo tão infeliz. E digo-te não vás.
Fica.
Para sempre.

Vergilio Ferreira

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Fogo posto



É apenas o começo. Só depois dói,
e se lhe dá nome.
Às vezes chamam-lhe paixão. Que pode
acontecer da maneira mais simples:
umas gotas de chuva no cabelo.
Aproximas a mão, os dedos
desatam a arder inesperadamente,
recuas de medo. Aqueles cabelos,
as suas gotas de água são o começo,
apenas o começo.
Antes do fim terás de pegar no fogo
e fazeres do inverno
a mais ardente das estações.


Eugénio de Andrade

quinta-feira, 15 de abril de 2010

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Noites assim

Fora do tempo
é mais longe do que qualquer espelho...
quando a noite me atormentava
de não chegares
quando a madrugada
me matava de partires


gil t. sousa

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Alguns dias...

Acordo com poemas nos olhos


...e como são mais os dias em que não te tenho do que os que te tenho, refugio-me na extensão do teu tacto pela minha pele ausente.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Apago-me


Pensava eu que a felicidade deveria estar escondida naqueles momentos de perturbação em que me descobria no teu olhar. Enganei-me, passei a vida a enganar-me.É tarde. Apago-me vagarosamente.Deus talvez esteja no fundo do mar, na claridade das águas.Dentro de mim sinto a melancolia da areia lavada pelo seu movimento invisível, eterno.


Al Berto

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Noites assim


Já não temo fantasmas
invoco a todos
que venham em bando
povoar meus dias
atormentar minhas noites
Entre tantos
loucos e livres
existe um
que é doce
e que me falta
,

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Nestes dias..


São muitos os dias em que os meus bolsos estão vazios.
Nestes dias, não há peça de vestuário que me abrigue da nudez.

Nelson d" Aires

terça-feira, 6 de abril de 2010

Espelhos


Os dedos com que me tocou
persistem sob a pele, onde a memória os move.
Tacteiam, impolutos. Tantas vezes
o suor os traz consigo da memória,
que não tenho na pele poro através
do qual eles não procurem sair quando transpiro.
A pele é o espelho da memória.

Luís Miguel Nava

sexta-feira, 2 de abril de 2010

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Todo o amor do mundo não foi suficiente


todo o amor do mundo não foi suficiente porque o amor não serve de nada.
ficaram só os papéis e a tristeza, ficou só a amargura e a cinza dos cigarros e da morte.
os domingos e as noites que passámos a fazer planos não foram suficientes e foram
demasiados porque hoje são como sangue no teu rosto, são como lágrimas.
sei que nos amámos muito e um dia, quando já não te encontrar em cada instante, em cada hora,
não irei negar isso. não irei negar nunca que te amei. nem mesmo quando estiver deitado,
nu, sobre os lençóis de outra e ela me obrigar a dizer que a amo ...

José Luis Peixoto

Aqui


ninguém ignora que os lagos gelam a partir das margens
e o homem a partir do coração


Luis Miguel Nava