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segunda-feira, 18 de março de 2024

memória futura


Guardo numa gaveta de velhos objectos as tuas palavras, 
até que o bolor do futuro as apague
 - para que só eu saiba o que nunca me disseste.







Nuno Júdice

sábado, 21 de março de 2020

a tua ausência dói-me



Quem me vai ler poesia, 
 quem me vai escrever poesia, 
 quem me vai oferecer poesia, 
 quem me vai arrumar a poesia? 








 Inês Fonseca Santos

terça-feira, 23 de janeiro de 2018




Pergunto a mim próprio em que noite nos perdemos?
 que desencontro nos levou de um a outro lado das
 nossas vidas? e que caminhos evitámos para que os nossos
 passos se não voltassem a cruzar? Mas as perguntas que
 te faço, hoje, já não têm resposta. Sento-me contigo, 
 nesta mesa da memória, e partilho o prato da solidão. Tu, 
 na cadeira vazia onde te imagino, sacodes o cabelo com
 um aceno de ironia. E dou-te razão: as coisas podiam 
 ter sido de outro modo. Não te disse as palavras que
 esperaste; e havia o mar, com as suas ondas, nessa tarde
 em que me puxaste para longe da cidade, como se
 a noite não nos obrigasse a voltar, quando o horizonte
 se apagou a nossa frente. Depois disso, nenhuma
 pergunta tem resposta. O que é absurdo há-de continuar
 absurdo, como o horizonte não se voltou a abrir, 
 trazendo de volta os teus olhos que me pediam que
 os olhasse, até que a noite me impedisse de o fazer








 Nuno Júdice

sexta-feira, 9 de outubro de 2015




Há olhos que só olham o sonho; e, quando
 o sonho se dissipa, ficam cegos. 






 Nuno Judíce
(Foto de Natalia Drepina)

domingo, 8 de março de 2015




As mulheres loucas arrumam os quartos, fazem
 as camas desfeitas, empilham camisas e calças, 
abotoam os cintos do infinito, prendem os laços 
da sombra. Com os seus olhos cegos, enfiam
 agulhas no buraco da vida, cosem as feridas
 do amor que não tiveram, cantam devagar
 a canção da idade fria. Dispo essas mulheres
 no meu poema; espalho as suas roupas pelas cadeiras
 do quarto; abro a cama onde as deito; rasgo 
os pontos que acabaram de coser. O seu sexo - 
seco pelos ventos de uma inquietação nocturna
 - humedece-me os dedos. Desfolho os dias de março
 enquanto desfloro os seus lábios. Por vezes,
 as mulheres loucas abrem a porta da varanda, 
respiram o perfume das trepadeiras brancas
 da primavera, desmaiam com o sol. 





 Nuno Júdice
 (Foto de Natalia Drepina)

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Post it



De noite, quando o frio entra pelas casas, e um resto de solidão gela 
o fundo da alma, aqueço-me com o fogo que me deixaste. 

 De manhã recolho as suas cinzas 





 Nuno Júdice
(Foto de Laura Makabresku)

quarta-feira, 19 de março de 2014

Coisas que poderiam parecer inúteis



Ao fazer a mala, tenho de pensar em tudo o que lá vou meter para não me esquecer de nada. Vou ao dicionário e tiro as palavras que me servirão de passaporte: o equador, uma linha de horizonte, a altitude e a latitude, um lugar de passageiro insistente. Dizem-me que não preciso de mais nada; mas continuo a encher a mala. Um pôr-do-sol para que a noite não caia tão depressa, o toque dos teus cabelos para que a minha mão os não esqueça, e aquele pássaro num jardim que nasceu nas traseiras da casa, e canta sem saber porquê. E outras coisas que poderiam parecer inúteis, mas de que vou precisar: uma frase indecisa a meio da noite, a constelação dos teus olhos quando os abres, e algumas folhas de papel onde irei escrever o que a tua ausência me vem ditar. E se me disserem que tenho excesso de peso, deixarei tudo isto em terra, e ficarei só com a tua imagem, a estrela de um sorriso triste, e o eco melancólico de um adeus 




 Nuno Judice

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Entre duas mãos


Podia ser aí. Contigo. Com o teu corpo
ainda nu, ou vestido da luz que entra pelas
persianas velhas, trazendo a tremura
das folhas na trepadeira do quintal.
Podia ser de manhã, ou de madrugada,
sabendo que teria de te abraçar para que não
desses pelo frio, com o quarto ainda
húmido da noite, num fim de outono.
Podia não ter sido nunca, se não fossem
assim as coisas: a tua mão ao encontro da
minha, no tampo da mesa, como se fosse
aí que tudo se jogasse, entre duas mãos.




Nuno Júdice

sexta-feira, 17 de maio de 2013

A mais certa certeza


Em que pensar, agora, senão em ti? Tu, que me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a manhã da minha noite. É verdade que te podia Dizer “ Como é mais fácil deixar que as coisas não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos apenas dentro de nós próprios?” Mas ensinaste-me a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou, até sermos um apenas no amor que nos une, contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor, ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo ele que mal corria quando por ele passámos, subindo a margem em que descobri o sentido de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor, de chegar antes de ti para te ver chegar: com a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu: a primavera luminosa da minha expectativa, a mais certa certeza de que gosto de ti, como gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.
 

Nuno Júdice

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Confissão


Mas levo comigo tudo
o que recuso.
Sinto colar-se-me às costas
um resto de noite;
e não sei voltar-me
para a frente, onde
amanhece


  Nuno Júdice

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Despertar


O que quero dizer é isto: estes ramos que saem da parede, e se estendem pelo muro até ao fim do quintal, trazem-me os frutos da tarde. Abro-os: os gomos húmidos dos teus lábios, as grainhas que saltam das frases, e se espalham pelo chão, a macia polpa dos dedos que procuram o sexo da noite, agora que é tarde para encontrar o caminho do regresso. E lembro-me de tudo. A lua posta nos teus seios como a branca medusa dos fundos. O beijo árido da luz que salta da janela, quando a abro, e dou com a lâmpada agonizante da madrugada. Não te acordo. Os teus cabelos estendem-se pelo travesseiro do desejo, caem da cama, estendem-se pelos rodapés da memória até ser dia, e a tua nudez saltar de dentro de mim.


Nuno Júdice

domingo, 15 de maio de 2011

Um dia





Um dia, um homem transformou-se em pássaro e
voou à volta da mulher que esperava que um
pássaro se transformasse em homem.



Nuno Júdice

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Dias Assim


Um dia, quando começa, parece igual aos outros. A mesma luz que entra pela janela, ruídos de obras e automóveis, vozes... Mas o que nesse dia me falta é outra coisa: a tua voz, a surpresa de cada instante que me dás,uma luz diferente que não vem de fora, da mesma rua e do mesmo céu, mas de dentro de ti. Assim, o que faz a mudança do mundo e das coisas não é o mundo nem as coisas: somos nós, e a relação que nos prende um ao outro - isso que, não sendo nada para fora de nós, é tudo o que temos nesta vida.

Nuno Júdice


segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Sem Palavras



Saber o que és, dizer o teu corpo, ouvir-te num breve instante, dizer o que é amor sem o dizer, tirar de mim um poema que te cante;
e ver passar-te por entre os dedos o fio de luz que prende os teus olhos, e vê-lo enrolar-se em segredos quando a tua voz o apaga e acende;
tocar-te os lábios num fim de verso, ver-te hesitar entre sorriso e mágoa, perguntar se o teu rosto tem reverso,
e ter nele uma transparência de água:
é o que vejo em ti no cair de véu em que me dás a terra que vale o céu.
Nuno Júdice

sexta-feira, 7 de maio de 2010

O que me habita os lábios

É como se nada tivesse para te dizer
Quando tu és tudo o que me habita os lábios:
Linguagem breve de gestos sábios
Que os teus olhos me dão para beber
.

Nuno Júdice

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Volta até mim

Volta até mim no silêncio da noite
a tua voz que eu amo, e as tuas palavras
que eu não esqueço. Volta até mim
para que a tua ausência não embacie
o vidro da memória, nem o transforme
no espelho baço dos meus olhos. Volta
com os teus lábios cujo beijo sonhei num estuário
vestido com a mortalha da névoa; e traz
contigo a maré da manhã com que
todos os náufragos sonharam.

Nuno Júdice

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Braille


Leio o amor no livro
da tua pele; demoro-me em cada
sílaba, no sulco macio
das vogais, num breve obstáculo
de consoantes, em que os meus dedos
penetram, até chegarem
ao fundo dos sentidos. Desfolho
as páginas que o teu desejo me abre,
ouvindo o murmúrio de um roçar
de palavras que se
juntam, como corpos, no abraço
de cada frase. E chego ao fim
para voltar ao princípio, decorando
o que já sei, e é sempre novo
quando o leio na tua pele.
Nuno Júdice

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Por dentro de mim


Então beijo-te: e é como se tocasse o sol, como se a sua chama me queimasse, sem doer, ou como se a luz entrasse por dentro de mim


Nuno Judice