quinta-feira, 31 de julho de 2014

Dos estilhaços



É apenas um pequeno buraco no meu peito
 mas sopra nele um vento terrível.





 Henri Michaux

sábado, 26 de julho de 2014

Do lado esquerdo



Voltar-me para o lado esquerdo e assim, 
 deslocando todo o peso do sangue
 sobre a metade mais gasta do meu corpo, 
Esmagar o coração. 





Carlos de Oliveira
(Foto de Laura Makabresku)

sexta-feira, 25 de julho de 2014

quinta-feira, 24 de julho de 2014

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Dançava por dentro de si mesma






Por vezes ouvia música. só ela ouvia música; aliás, era ela que escolhia, mentalmente, as músicas que ouvia, ouvia secretamente essas músicas. e dançava com essas músicas; dançava com os olhos, com movimentos de cabeça, com os braços. podia estar a ouvir pessoas e estar, ao mesmo tempo, a dançar essas músicas. dançava; às vezes, por dentro de si mesma. 


 
 
 



Baptista Bastos

terça-feira, 22 de julho de 2014

sábado, 19 de julho de 2014

O amor comeu todos os meus livros de poesia



O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome. O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos. O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina. O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos. Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina. O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água. O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome. O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel. O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso. O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala. O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte. 





 João Cabral de Melo Neto

sexta-feira, 18 de julho de 2014

quarta-feira, 16 de julho de 2014

terça-feira, 15 de julho de 2014

O corpo



Vem um dia em que o corpo não responde
 não acorda não condiz
 não se habitua

 É uma primeira e definitiva recusa: alheio
 não se dá ao trabalho de 
avisar ou despedir-se

 – o corpo
 vem um dia: agora e na hora 
da nossa morte
 ámen 





 Rui Caeiro
 (Foto de Laura Makabresku)

sábado, 12 de julho de 2014

Cumpro-me no que sou



Suicido-me devagar a pão com queijo, vinho tinto, cigarros e solidão. Bem sei que podia comprar sopa, já que não a faço. Podia também comprar um microondas, serviria para aquecer a sopa e ainda preparar refeições pré-cozinhadas. Não se trataria de um grande passo, do ponto de vista do destino da humanidade, mas significaria ao menos comida quente no prato. Podia até casar-me, segundo o juízo optimista da minha mãe, e desse modo adquirir tudo isto num pacote bonificado, diminuindo o custo de cada um dos artigos individualmente considerados. Está tudo certo, por conseguinte, eu errado. Determinam os factos, no entanto, que o casamento é para mim um caso semelhante ao do microondas, ou seja, uma circunstância de que não suporto o ruído e, não serei eu que o anuncie, se há coisa que ninguém pode é ser aquele que não é (assim se desmorona um admirável plano, ignorando as esperanças da minha mãe). Resta acrescentar que nada há de heróico no meu gesto, nem eu me ocupo já de o iludir. É a mão que tenho (e a que não tenho). O prato que recuso (e o que aceito). Pão com queijo, vinho tinto, cigarros e solidão, 
cumpro-me no que sou: um exemplar falhado da espécie. 





 Jorge Roque

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Nada acontece



não saio antes
 que tudo esteja pronto

a loiça a escorrer na cozinha
 o aspirador cheio 
a varanda lavada pelo dia
 o rádio em off

 nessa hora em 
que a noite se aproxima devagar
 do meu rosto
escrevo poema nenhum 
falta-me língua

 sento-me num banco do jardim
 mais próximo
 onde (que perfeição)

nada acontece





 Miguel-Manso

terça-feira, 8 de julho de 2014

O vento no coração





Tu fazes o silêncio dos lilases que esvoaçam 
na minha tragédia do vento no coração.
 Tu fizeste da minha vida um conto para crianças
 onde naufrágios e mortes
 são pretextos de cerimónias adoráveis 





 Alejandra Pizarnik
 (Foto de Laura Makabresku)

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Eis o que todo o dia me veio á cabeça



Quem anda há tanto tempo no meu coração devia pagar renda ou então pedir-me a chave





 João Pedro Silveira

domingo, 6 de julho de 2014

sábado, 5 de julho de 2014

Qualquer coisa assim



Se acaso me quiseres 
Sou dessas mulheres 
Que só dizem sim

Por uma coisa à toa 
Uma noitada boa 






 Chico Buarque

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Dúvidas



Não sinto culpa por não saber o nome das flores.
 Foram dúvidas o que sempre tive,
 e as dores não admitem nomes. 
Uma vez não acreditamos já tudo ter sido dito. 
Espera-se numa palavra a devolução do amor. 





 Paulo José Miranda

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Desencontro



Há um encontro que julgas ter perdido, 
mas ninguém te esperava e tu não sabias 






 Luís Filipe Castro Mendes

terça-feira, 1 de julho de 2014









Palavras



Uma pessoa
 que fala
 só tem uns poucos sons
 para se fazer entender
 e 
dentro
 de toda
 a palavra 
esse lugar
 cego
 chamado 
 silêncio 





 Pia Tafdrup
 (Foto de Laura Makabresku)