domingo, 28 de abril de 2013

O sorriso


Creio que foi o sorriso,
o  sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
  lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
  nu dentro daquele sorriso.
  Correr, navegar, morrer naquele sorriso.



Eugénio de Andrade

sábado, 27 de abril de 2013

Quotidiano dos afectos



Os livros fazem fazer coisas. Divórcios, poemas. O amor também. Ele gosta de livros. Ela gosta dele. Oferece-lhe livros. Ele lê os livros que ela lhe oferece deitado no lado esquerdo da cama. Ela não lê, antes medita: Para que lado se deita o amor? Por qual narina respira melhor? Ela levanta-se do lado direito da cama e veste o robe de seda púrpura. Prepara-se para o afecto. Ele continua a ler: prefere a carne e o odor forte de certas frases. Adormece com o livro aberto a fazer o cume do coração. Com a página 63. Ela destapa-lhe o coração, lê uma frase aleatória. Rasga, amarfanha, mastiga, engole. Despe o robe de seda púrpura e veste o pijama com o cheiro a vésperas. Algodão impregnado de monotonia. Os livros fazem fazer coisas. Divórcios, poemas. O amor também.



Sandro William Junqueira (Lote 19)
( Retirado de "O Prazer da Leitura", Edição Fnac Comemorativa do Dia Mundial do Livro)

sábado, 20 de abril de 2013

O poema feio


a princesa feia não casou mas, no tempo em que foi visitada por príncipes solteiros, querendo agradar, cortou uns palmos às pernas para ficar mais baixa e cómoda ao abraço, puxou pelos dedos para ficar com eles compridos, amassou os seios de encontro ao pescoço para subirem aos olhos da gente, rasgou os lábios para sorrir eternamente. agora, ali sentada, sozinha de amores, lembrava-se de ser impossivelmente a mulher que foi, mas os ratos passavam-lhe entre as falhas cortadas das pernas, e os dedos desjuntavam-se irremediavelmente murchos de encontro ao chão, os seios coagularam como calcificados com as marcas desorganizadas das mãos e os lábios articulavam apenas palavras de dentes, trituradas pelo osso da cabeça lentamente vertendo para fora da pele. conformada, a princesa feia, dizia à prioresa sua amiga que o vento estava louco. levantava-se instável e profundamente mortal, fechava a janela e voltava ao silêncio



  Valter Hugo Mãe

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Longa e lenta


quero levar-te nas mãos
coisas que nunca vi
quero cegar
e com a loucura
dos dias iguais
erguer
a muralha das horas
longa
como o longo beijo da noite
lenta
como o lento vermelho das rosas



gil t. sousa

quarta-feira, 17 de abril de 2013

domingo, 14 de abril de 2013

Eles olhavam e não a viam


Ela fazia mais sombra do que existia



Clarice Lispector

Dentro dos dias


De que são feitos os dias?
  - De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.
Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.
De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.
Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças



Cecília Meireles

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Razões


se regressar, será aos teus olhos que regresso.
os acasos ardem nos lábios dos amieiros que na margem do rio
aguardam que regresse. a isso regresso, buscando
coincidências e nomes, razões. afasto-me
provavelmente de ti, embora secretamente.
é por isso estranha a forma como os acasos ardem
para sempre. a outro rio e sob outras sombras
regresso, devagar para não ferir o que antes amei
e por quem morri muitas vezes. agora de novo morro
e por outro rio regresso até ao lugar onde elas, as aves,
nascem para não desaparecerem. e isso é como permanecer.



Francisco José Viegas

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Qualquer coisa


Um hálito de música ou de sonho, qualquer coisa que faça quase sentir,
 qualquer coisa que faça não pensar




Fernando Pessoa
  (Bernardo Soares - Livro do Desassossego)

terça-feira, 9 de abril de 2013

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Hoje


Resvalas neste sopro.
Sabes
que tens o olhar ferido
desde sempre, que o incêndio
das palavras em trânsito celebra
prescritas sílabas, ancorados
ritos, desprevenidos
equinócios.
Dantes,
havia um mar crispado
na fissura dos lábios. Hoje, apenas
algumas gotas de sal.


Albano Martins

( Foto de Graça Loureiro )

domingo, 7 de abril de 2013

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Já não me lembro


Foi no primeiro deserto.
Dois braços lançaram uma grande pedra.
Não houve um grito. Houve sangue.
Houve pela primeira vez a morte.
Já não me lembro se fui Abel ou Caim.
 


Jorge Luis Borges

terça-feira, 2 de abril de 2013

Ouve


Estou farto de escavar nos olhos
abismos de ternura
onde cabem todos menos eu.
Estou farto de palavras de perdão
que me ferem a boca
dum frio de lágrimas quentes de punhal.
Estou farto desta dor inútil
de chorar por mim nos outros.
- Eu que nem sequer tenho a coragem de escrever
os versos que me fazem doer.



José Gomes Ferreira

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Calendário das Dificuldades Diárias


Não é a primeira vez que me queixo,
ninguém me escuta.
Esta noite a chuva entrou-me pelos ossos
e não há quem acenda o lume.
Quem partiu levou (me) consigo
(...)
deixando atrás de si a porta aberta.



   Eugénio de Andrade