quinta-feira, 27 de outubro de 2016




O tempo de sedução terminou. Terás de me tocar, terás de trocar o tacto dos olhos pelo tacto dos dedos. 
Apenas persistirá o jogo, a cumplicidade, e uma ténue vibração do corpo que se perdeu contra o meu corpo. 







 Al Berto

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

terça-feira, 25 de outubro de 2016




mas se a noite vier 
 cheia de luzes ilegíveis de véus
 de relógios parados - ergue as asas 
 fere o ar que te sufoca e não te mexas 
 para que eu fique a ver-te estilhaçar 
 aquilo que penso e já não escrevo - aquilo 
 que perdeu o nome e se bebe como cicuta
 junto ao precipício e à beleza do teu corpo







 Al Berto

domingo, 23 de outubro de 2016




Falas-me em asas,
 Em voar 

 Não vês que eu não sou nada, 
Nem anjo nem pessoa, 
Nem ave nem engenho, 
Que é totalmente outra
 A minha definição? 

 Eu não sou mais do que o próprio chão 






 Ana Hatherty

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Outono




Senhor, está na hora. Foi imenso o Verão. 
Pousa a tua sombra sobre os relógios de sol 
e solta os ventos pelos prados

Ordena que engordem os últimos frutos; 
concede-lhes mais dois dias meridionais, 
impele-os para a conclusão, e busca 
a derradeira doçura no vinho pesado. 

Quem não tiver agora casa, já não a construirá.
 Quem estiver agora sozinho, assim permanecerá por muito tempo, 
vigiando, lendo, escrevendo longas cartas
 e deambulando pelas alamedas, para cá e para lá, 
desassossegado, enquanto as folhas se deixam levar. 






 Rainer Maria Rilke
 (tradução de Vasco Gato)

terça-feira, 18 de outubro de 2016




Apaixonar-se sozinha é apaixonar-se pelo silêncio. 
 Um silêncio com fumos e espelhos.
 O amor, se é alguma coisa, é dos que se olham. 







Alejandra Pizarnik

domingo, 16 de outubro de 2016

um lugar sem história na história da minha vida




Queimar tudo. Alugar uma casa num lugar sem história 
na história da minha vida, um lugar de postais antigos, 
desbotados, e do passado guardar apenas uma urna
 de cinzas, no compartimento por baixo do lava-louças. 
Ver filmes sem mérito, ler livros sem arte, ouvir óperas
 cómicas e inêxitos impopulares e anacrónicos. Tentar, 
sem sucesso, pescar, e ir ao mercado comprar peixe 
miúdo e roupas com defeitos às ciganas. Ser anónimo
 por fora e por dentro, criança que não se conhece
 nem quer conhecer e que procura apenas o início
 e o fim dum carreiro de formigas, revelação suficiente
 para quem ainda não desperdiçou a vida a perscrutar 
 os gloriosos fundos de um oceano de merda. Beber
 pouco. Foder com a moderação que a improbabilidade
 do diálogo impõe. Emular os pioneiros americanos, 
pecadores em busca de recomeço e horizonte, longe 
das catedrais e de si próprios, longe dos quiromantes
 e das sibilas e, sobretudo, da inexorável morte do amor. 






Miguel Martins (Desvão)
(Foto de Natalia Drepina)

sábado, 15 de outubro de 2016

sexta-feira, 14 de outubro de 2016




Outubro continua 
e a tristeza ainda precisa
 de muitas personagens
 secundárias. Regressam, 
indecisas, de certas 
regiões da consciência - 
pernoitam, conspiram, 
nos versos divagam
 por extremas cidades 
que não conheci
 - e algures, fechadas 
no quarto onde tudo 
começa, são ainda elas
 que me escrevem cartas
 e me pedem contas 
do que fui, do que perdi. 







 Rui Pires Cabral

segunda-feira, 10 de outubro de 2016




não te esqueças de me visitar. traz-me as fotografias de Veneza e aquele poema que me escreveste quando o nosso amor ainda era o que de mais magnífico acontecera nas nossas vidas e no mundo. 

havemos de nos sentar nas mesmas cadeiras como se fossem as mesmas manhãs de sábado. havemos de olhar os mesmos telhados, divagar sobre a eternidade dos gestos e jurar comovidamente que as nossas almas se tocaram de uma maneira única e inesquecível. 

eu hei-de esconder-te a minha interminável solidão e tu hás-de demonstrar-me, muito inocentemente, nas tuas palavras tão cheias de vida e de juventude, como a morte nos descobre mesmo nos lugares mais altos. 






 gil t. sousa
(Foto Veneza Abril 2011)

domingo, 9 de outubro de 2016




O dia vai entrando no quarto calcinado. Foi inútil a
 sutura negra. 

Resta um prazer: ardemos
 em palavras incompreensíveis. 






 António Gamoneda

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

nem de saudades




Em voz alta, ensaiei o teu nome: 
a palavra partiu-se 
Nem eco ínfimo neste quarto
 quase oco de mobília 

 Quase um tempo de vida a dormir
 a teu lado e o desapego é isto: 
um eco ausente, uma ausência de nome
 a repetir-se 

 saber que nunca mais: reduzida
 a um canto desta cama larga, 
o calor sufocante

 Em vez: o meu pé esquerdo
 cruzado em lado esquerdo
 nesta cama 

 O teu nome num chão 
nem de saudades 








 Ana Luísa Amaral

quarta-feira, 5 de outubro de 2016




ou à janela no escuro a ouvir a coruja de cabeça vazia até ser difícil acreditar cada vez mais
 difícil de acreditar que alguma vez tivesses jurado amor a alguém ou alguém a ti até se tornar 
numa daquelas coisas que tu ias inventando para conter o vazio uma daquelas histórias para 
impedir que o vazio se viesse embrulhar num lençol 







 Samuel Beckett

terça-feira, 4 de outubro de 2016




Sofro calada 
Pra não te dizer a cada
 Segundo o que é um 
Segundo sem ti






 (parafraseando Milton Nascimento)





segunda-feira, 3 de outubro de 2016




Cobriste-me de nudez o corpo nu quando tive frio 
envolveste-me em frieza quando fiquei cansada
 serviste-te do meu sono 
 Saciaste a minha fome com fome mataste com sede a minha sede
 Quando o telefone toca e ninguém diz nada és tu do outro lado 







 Ulla Hahn

sábado, 1 de outubro de 2016





"todas as noites não saber 
 em que hora parar
 em que degrau de sombra
 largar o recado para o nada 
que nos queima as mãos"