terça-feira, 30 de junho de 2015




Se flores jamais me deres,
 Se eu rir e tu não rires, 
Se quando eu chegar fugires 
Ninguém dirá que me queres! 
Se tu ocultar puderes 
O que há nesses olhos teus
 E que é tão igual nos meus
 Ninguém dirá que me queres! 
 Se alguma vez tu puseres 
A minha mão tua mão 
Sem que estremeças, então 
Ninguém dirá que me queres!
 E se o que te dei me deres 
A minha trança e três flores 
Não pode haver mais rumores 
Ninguém dirá que me queres! 





 Reinaldo Ferreira
 (Foto de Josephine Cardin)

segunda-feira, 29 de junho de 2015




Não digas nada, dá-me só a mão. Palavra de honra que não é preciso dizer nada, a mão chega. 
Parece-te estranho que a mão chegue, não é, mas chega. (…) 
Se calhar sou uma pessoa carente. Se calhar nem sequer sou carente, sou só parvo. 






António Lobo Antunes
 (Foto de Natalia Drepina)

domingo, 28 de junho de 2015

sexta-feira, 26 de junho de 2015




Quantas pessoas caminham na
 minha direcção? Quantas me 
descobrem por entre a multidão
 e pousam os seus olhos inteiros 
nos meus olhos? Podia acreditar 
 que entre elas está o homem que
 trocaria comigo os dedos sobre a 
mesa, uma palavra que fosse gomo 
de laranja e poema, o corpo aceso
 sob o lençol cansado de mais um 
dia. Mas quantos destes rostos de 
pedra que me cercam escondem o 
 seu pelas ruas desta tarde? Quantos 
nomes de acaso e de silêncio terei
 eu de escutar para descobrir o seu 
 no meu ouvido? Quantas pessoas
 caminham contra mim? 






 Maria Do Rosário Pedreira

quarta-feira, 24 de junho de 2015




Por favor, 
 respeita o meu silêncio, 
o silêncio é a minha melhor arma. 
Escutaste as minhas palavras
 quando fiquei silencioso? 
Sentiste a beleza do que disse
 quando não disse nada? 





 Nizar Qabbanni
 (Foto de Laura Makabresku)

segunda-feira, 22 de junho de 2015




Na cartilha maternal das borboletas aprendeste 
a voar, e ali escreveste, na ardósia do vento, 
os primeiros poemas. 





 Albano Martins

domingo, 21 de junho de 2015




Esta noite preciso de outro verão sobre a boca
 crescendo nem que seja de rastos.






 Eugénio de Andrade

sábado, 20 de junho de 2015




Saltei de mim ao amanhecer. 
Deixei o meu corpo junto à luz
 e cantei a tristeza do que nasce. 





 Alejandra Pizarnik

sexta-feira, 19 de junho de 2015

quinta-feira, 18 de junho de 2015




Quando pousa o pássaro 
 quando acorda o espelho 
 quando amadurece a hora






Orides Fontela
 (Foto de Laura Makabresku)

quarta-feira, 17 de junho de 2015




Nunca houve deus, nem virgens, nem santos, 
nem ícone que proteja, nem oração que console;
 nunca houve milagres ou prodígios, 
nem salvação da alma ou vida eterna; 
nem palavras mágicas, nem bálsamo eficaz 
contra a dor que não enfraquece nunca; 
e nem luz do outro lado das sombras,
 nem saída do túnel, nem esperança. 
Só nos acompanha nesta travessia 
um anjo da guarda perplexo que suporta
 a mesma vida de cão que todos nós. 





 Amalia Bautista

segunda-feira, 15 de junho de 2015




Ganhámos juntos o que perdemos separados: 
a luz incomparável, esta luz quase louca 
da primavera, esta gaivota 
caída dos ombros da luz, 
e a leve, saborosa tristeza do entardecer, 
como uma carta por abrir, 
uma palavra por dizer 





 Alexandre O'Neill

sexta-feira, 12 de junho de 2015




Havia uma cidade em espanto linear a cavalo noutra cidade em geometria ambígua, um jardim era metade do outro, em que as pétalas andavam para trás e para diante, com o perfume trocado e o silêncio das cores tremendo no seu erro cheio de alvoroço florido, os arquitectos disseram: é preciso um novo espaço para estas duas pessoas que estão a pensar tanto com o corpo – e numa casa abria-se a porta que vigiava os corredores onde o pólen se acendia e dançava, e de repente a porta descerrava o espectáculo antigo do nascimento da lua num quarto escuro, via-se o que a lua sempre fez para trepar do soalho para o tecto pelas paredes docemente retardadas, era o tempo da seda entre os nossos vinte dedos embrulhados, e alguém escrevia à máquina num dos planos de intersecção urbana, e a frase escrita aparecia com o seu rumor externo noutro sítio, mas agora via-se no meio de uma clareira de silêncio vivo, e ia-se apreendendo a nossa mútua nudez colocada no sentido da frase, nós éramos essa cidade tremendamente posta em uso, em toda a parte estavam mãos em vez de garfos e lâmpadas, e a frase era assim: o amor, as mãos ininterruptas. 





 Herberto Helder

quinta-feira, 11 de junho de 2015












Guardava alguns silêncios e também as coisas
 que não dissera por acaso. Guardava agora também
 esses acasos, brancos recados entre as palavras
 que lhe sobravam nas gavetas. E ainda assim guardaria
 para sempre essas palavras, ou a imagem de lábios a 
dizê-las ― um rosto ainda sem ser triste lembrando o verão 
 Teria aguardado esse verão, o cheiro quente dos morangos
 à beira os dedos. E tê-lo-ia sobretudo guardado,
 como guardava agora, sem nunca o ter ouvido, o som
 das espigas, na planície, à passagem do vento. 
 Mas agora só podia aguardar a passagem do tempo 
sem palavras; ou um vento de feição, um acaso
 que tudo justificasse. E no silêncio em que se ia guardando 
buscava apenas um lugar mais sereno para as memórias. 





 Maria do Rosário Pedreira
 (Foto de Laura Makabresku)

terça-feira, 9 de junho de 2015

segunda-feira, 8 de junho de 2015




Podias esculpir-me 
fazer de mim coisa 
que tu construías
 com as mãos 
e quando o meu corpo 
fosse também teu 
reservavas-me. 





 Sarah Adamapoulos
 (Foto de Natalia Drepina)

sábado, 6 de junho de 2015




um poema que é só nosso . um post it amarrotado no bolso. uma palavra secreta. uma estrada sem saída. uma noite ao relento a contar estrelas. o nome de todas as constelações. o canto das cigarras riscando o silêncio. o corpo nu no chão quente. os girassois a perder de vista. e as papoilas. um abraço apertado. um beijo roubado. uma caricia. um desejo só sonhado. livros lidos pela noite dentro. noites sonhadas. um desgosto de amor. fotografias gravadas na memória. a dor que se esconde. o medo do escuro. a saudade do que se perdeu. as cartas de amor que nunca mandamos. aquele poema escrito e rasgado. a chuva na pele. o arrepio no corpo. a t- shirt branca. os pés descalços. o som de certas palavras. o cheiro das magnólias, da terra molhada e da maresia. o som do silêncio. a voz rouca de tom waits. uma vela acesa. um copo de tinto. um silêncio partilhado. alguns lugares secretos. voltar a casa. os gatos a nossa espera. o baloiço no quintal. a esperança perdida. o começar de novo. o que não lembramos. o que não esquecemos. a voragem do tempo. o tempo tão lento. um beijo no pescoço. o não saber o que fazer com as mãos. os velhos amigos. as duvidas antigas. as certas certezas. um gelado de canela. o velho disco de piazolla. um olhar em silêncio que nunca se esqueceu. o cheiro dos livros. o sabor das cerejas. a praia deserta. a chave atrás do vaso. a espera por quem não volta. o desejo na ponta dos dedos. aqueles poemas que saram as feridas








sexta-feira, 5 de junho de 2015




Trazemos no fundo do casaco
 algumas canções usadas 
— e achamos, por vezes, que 
é para nós que as estrelas brilham,
 entre prédios demolidos e amores também. 
Acabamos, mais cedo ou mais tarde, 
por acreditar no silêncio.
 A felicidade, para outros, continua válida. 
Mas disso, obviamente, nada podemos saber. 





 Manuel de Freitas
 (Foto de Natalia Drepina)

quinta-feira, 4 de junho de 2015




Eu tive um cão ou era ele 
que me tinha e me deixava à solta 
guiada sem saber que ia. 
Tomava as minhas feridas,
 a tristeza que eu pudesse ter 
e sofria dela como eu nem sofria. 
Trocava de mal trocando-lhe as voltas. 
Punha a coleira ao pescoço 
e levava-me a passear 
como se eu fosse o dono. 
E à noite dormia no chão 
ou então fingia. Eu acordava 
com um servo aos pés da cama, 
armava-me em amo
 e era ele que me tinha. 
Exímio no silêncio 
e no uso das armas
 com que me defendia 
de todos e também de mim:
 a linha veloz do pêlo luzidio, 
o frémito da língua, 
o focinho em arco para a escuta. 
Era um cão que me tinha 
e uma tarde de verão
 atirei-lhe um osso gostoso 
antes de o deixar no canil. 





Rosa Alice Branco
 (Foto de Laura Makabresku)

quarta-feira, 3 de junho de 2015

terça-feira, 2 de junho de 2015



Mais do que isto, sim 
Mais do que isto, podemos ficar caladas. 
Com um olhar parado
 como aquele dos mortos. 
Podemos fixar durante longas horas
 o fumo a sair de um cigarro 
a forma de uma chávena
 a flor esbatida no tapete
 o slogan a desaparecer na parede. 
Podemos afastar as cortinas 
com dedos enrugados e ver
 a chuva cair fortemente no beco 
uma criança parada na porta
 com um colorido papagaio de papel 
uma carripana a sair da praça vazia
 numa pressa barulhenta. 
Podemos estar ali paradas 
Ao pé das cortina – cegas, surdas 
Podemos gritar com uma voz bastante falsa, bastante remota
 “eu amo” 
 Nos braços dominadores de um homem
 podemos ser uma saudável e bonita mulher. 
Com um corpo como uma toalha de mesa de cabedal 
com dois grandes e duros peitos, 
na cama com um bêbedo, um louco, um vadio 
podemos manchar a inocência do amor. 
 Podemos degradar com astúcia 
todos os mistérios profundos 
podemos continuar a resolver palavras cruzadas
 a descobrir alegremente as respostas sem sentido
 respostas sem sentido, sim – de cinco ou seis letras. 
Com cabeça inclinada, podemos ajoelhar-nos uma vida inteira perante a grade dourada de um túmulo
 podemos encontrar deus numa sepultura sem nome 
podemos trocar a nossa fé por uma moeda sem valor 
podemos apodrecer no canto duma mesquita 
como um velho recitador de orações de peregrinos.
 Podemos ser constante como o zero 
Nas somas, subtracções, ou multiplicações. 
Podemos pensar nos teus - mesmo nos teus – olhos 
Como buracos sem brilho nuns sapatos velhos. 
Podemos secar-nos numa bacia, como água. 
 Com vergonha podemos esconder a beleza de um momento juntos
 no fundo de um baú 
como uma velha e estranha foto, 
na moldura vazia de um dia podemos mostrar 
a imagem duma execução, duma crucificação, ou de um martírio, 
podemos tapar as rachas na parede com uma máscara
 podemos lidar com imagens mais ocas do que essas. 
 Podemos ser como bonecas de corda 
e olhar para o mundo como olhos de vidro
 e jazer durante anos entre rendas e lantejoulas 
o corpo recheado de palha
 dentro de uma caixa de feltro,
 e a cada toque de luxúria 
gritar sem nenhuma razão 
“Ah, que feliz sou!” 





 Forugh Farrokhzad

segunda-feira, 1 de junho de 2015




como sou incapaz de contar histórias fotografo corpos
 muitas vezes como maneira de agarrar o vento 
faço construções de quem conhece por dentro a monotonia 
e para aumentar o grão 
 anoto o vermelho que trespassa o olhar vazio 





 Maria Sousa