quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Diálogos íntimos




Telefonara-lhe. Sou eu. Ela reconhecera-o logo pela voz.
Ele dissera: queria só ouvir a sua voz. Ela dissera: sou eu,
bom dia. Ele... tinha medo como dantes. A sua voz tremia de
repente... Dissera-lhe que era como dantes, que ainda a amava,
que nunca poderia deixar de a amar, que a amaria até à morte.

Marguerite Duras

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Dos dias


Em minha casa reina o equilíbrio:
a gata desarruma e desarruma
eu arrumo e arrumo de novo
a minha filha mantém-se neutra




Luís Ene (ENE COISAS)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Diz-me


A quem dás a mão e confias
um segredo?
Diz-me,
Diz-me, para que possa habitar
um a um os meus dias.

Eugénio de Andrade

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Sabias ?


A verdade cabia nos teus olhos, mas estes fecham-se
com um movimento que se torna simples. Apenas a espuma
era trazida pelas ondas e outros vestígios chegaram
de um dia humedecido; depois, vimos como se deteve
e ficou de novo submersa. Mas é dela que talvez se receba
um aviso. Ainda hoje a esperamos quando junto de nós
finalmente se encontra uma nova imagem abandonada
pela proximidade da noite. Sabias que a verdade é um aviso?




Fernando Guimarães

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Uma ferida aberta


Trago uma ferida aberta na cabeça, outra mais abaixo onde não se vê. Desta última não falarei. Caminho pelas ruas e trago uma ferida aberta na cabeça. A ferida é maior do que o tamanho que tem. A ferida é o sítio onde todo o meu corpo germina. Flor de mácula, for de infâmia. Caminho entre as ruas e trago essa flor aberta na cabeça.


Jorge Roque

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A minha história




Gravei palavras em cada centímetro da tua pele,
para que não fossem esquecidas.
Fiz de ti o meu livro.


Silvia Chueire

domingo, 19 de fevereiro de 2012

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Atrás da porta


Talvez pudesse ouvir passos junto à porta do quarto, passos leves que estacariam enquanto a minha vida, toda a vida, ficaria suspensa. Eu existiria então vagamente, alimentado pela violência de uma esperança, preso à obscura respiração dessa pessoa parada. Os comboios passariam sempre. E eu estaria a pensar nas palavras do amor, naquilo que se pode dizer quando a extrema solidão nos dá um talento inconcebível. O meu talento seria o máximo talento de um homem e devia reter, apenas pela sua força silenciosa, essa pessoa defronte da porta, a poucos metros, à distância de um simples movimento caloroso. Mas nesse instante ser-me-ia revelada a essencial crueldade do espírito. Penso que desejaria somente a presença incógnita e solitária dessa pessoa atrás da porta. Ela não deveria bater, solicitar, inquirir



Herberto Helder

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Um coração

Um coração de sangue
Um coração de xisto e aço
Um coração angular e redondo
Como a pedra que te abre
Do interior do chão
Um coração solar
De granito
De carne
Curado da noite de nascença
Um coração de homem
Um coração de homem vivo
Um coração de criança ao colo
Interior
- Mais interior do que o sangue no coração que me darás -
Peço um coração
Nuclear

Daniel Faria

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Poupanças


A teu lado não me importam as notícias,
que tivemos o Inverno mais seco de sempre,
e a guerra, o petróleo, o bulício dos tolos.
Os jornais não trazem nada que me possa
interessar: que aprendeste finalmente a cair
de bicicleta, tens consulta para ontem
com o médico das costas e o teu sono
continua perturbado por afãs de perfeição.
O amor é assim, deixa o logro do mundo
a ganir à porta. Vai tu à janela, se queres,
e atira-lhe um osso de atenção. Eu já não
creio que a história seja o melhor amigo
do homem - tu sim, felicidade perceptível,
âncora do tempo(..) Graças
a ti já comecei a poupar uns oito euros
por semana em semanários, arrelias e afins.




José Miguel Silva

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Quase nada


O amor
é uma ave a tremer
nas mãos duma criança.
Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz.

Eugénio de Andrade

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Qualquer coisa


O que quer que fosse - o liso
algodão dos lábios, a almofada
volúvel do sorriso,
Lâmpadas
ardendo sob
as devolutas pálpebras.


Albano Martins

domingo, 12 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Melancolia


Há meses que vivo rodeada
por uma substância negra e pegajosa
que invadiu a minha casa. As paredes,
o chão, as janelas e os móveis,
a comida, os livros e a roupa,
o teclado do computador, as plantas,
o telefone… Está tudo impregnado
com este pez escuro, o mesmo que respiro
e que me mata pouco a pouco.
Dizem que os venturosos e os néscios
chamam melancolia a esta porcaria
que apodrece o coração e asfixia a alma.


Amalia Bautista

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

De todas as maneiras




De muitas formas se diz a minha luz
De muitos modos me visita o meu anjo
Vem devagarinho ......
molda-me com esperas......
enfeita de estrelas os espelhos onde
me deito...
por fim, numa pausa de murmúrios, numa paleta de cheiros bem fortes
deixa o meu corpo feliz...



Victor Oliveira Mateus

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Boletim meteorológico

Céu muito nublado vento
fraco moderado de sudoeste
soprando forte nas terras
altas aguaceiros em especial
nas regiões do Norte e Centro
e que serão de neve nos
pontos mais altos da Serra
da Estrela
e no teu coração.


Jorge Sousa Braga

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Não entendo


Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.
Entender é sempre limitado.
Mas não entender pode não ter fronteiras.
Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.
Não entender, do modo como falo, é um dom.
Não entender, mas não como um simples de espírito.
O bom é ser inteligente e não entender.
É uma bênção estranha, como ter loucura sem ser doida.
É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice.
Só que de vez em quando vem a inquietação:
quero entender um pouco.
Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.


Clarice Lispector

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Letters to strangers


Quando já nem do amor eu souber escrever. Quando as palavras forem mais densas que a dimensão dos sentimentos, quando este peso duro alcochoar no musgo o cessar da minha fome. Quando for demasiado tarde no exílio dos meus sentires, quando à caneta lhe faltar a tinta do meu corpo em prosa, e da prosa a frase se fizer desfeita no meu peito em branco. Quando, e quanto amor escalpado, vazio como todas as outras peles que desconsolo no meu abandono. Quando já nem do amor eu souber ler, esquecida na lacuna dos teus olvidos. Quando os lugares que por nós imaginei sucumbirem no vendaval das tuas emoções. Deixa ficar a louça gasta dos anos transpostos, deixa ficar a cama desfiada em tapeçaria bordeaux. Deixa ficar um simples copo de água encadeado no reflexo de um caudal maior. Quando já nem do amor me lembrar que me sucedeste, e de dor atordoada sem dedos que me recortem as palavras, eu fingir esquecer que um dia também eu te aconteci - foi porque morri na reunúncia dos teus sentidos.


Alice Turvo

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Tem soprado vento


Ainda é cedo para saber até onde mentiram os espelhos. o único consolo para a dor é saber que o desejo pode ser inesgotável. passo os dias absorvido com trabalhos caseiros. evito pensar em ti.
cavo, planto, enxerto, podo, varo, limpo, cozinho, arrumo, lavo. é cada vez mais importante não me lembrar de mim. tem soprado vento glacial, fortíssimo, o que me desiquilibra imenso. enfio um gorro de lã até às orelhas, mas de pouco serve, o vento fustiga-me à velocidade do sangue. tremo o dia todo, como se tivesse alguma febre maligna. há três dias que não como e vivo, enroscado, junto à lareira. durmo no chão, mantenho o fogo aceso noite e dia.

Al Berto