sábado, 31 de março de 2012

Tarde demais


...
Faz-me uma carícia ao de leve, diz-me palavras em voz serena.
Deixa que os meus olhos se fechem, deixa que o negro se esqueça.
Depois sai e fecha a porta sem ruído.

Jorge Roque (Broto Sofro)

sexta-feira, 30 de março de 2012

Dos dias


(passam sobre mim os dias, extenuantes. o que sei é que
existir adquiriu um peso insuportável. visto-me de manhã,
e observo os meus gestos, como se outra mulher fora de mim,
ainda nua e ensonada, retivesse no seio a vaca da tristeza.
suponho que permanece no quarto, deitada na minha cama,
enquanto finjo, ou procuro a normalidade, até à hora de dormir).

Alice Macedo Campos
(roubado ao belissimo "a tradução da memória")

quinta-feira, 29 de março de 2012

quarta-feira, 28 de março de 2012

É só um olhar


Não, não é ainda a inquieta luz de março à proa de um sorriso , nem a gloriosa ascensão do trigo, a seda de uma andorinha roçando o ombro nu, o pequeno e solitário rio adormecido na garganta; não, nem o cheiro acidulado e bom do corpo, depois do amor, pelas ruas a caminho do mar, ou o despenhado silêncio da pequena praça, como um barco, o sorriso à proa; não, é só um olhar.



Eugénio de Andrade

segunda-feira, 26 de março de 2012

Poesia e propaganda

Hei-de mandar arrastar com muito orgulho,
pelo pequeno avião da propaganda
e no céu inocente de Lisboa,
um dos meus versos, um dos meus
mais sonoros e compridos versos:

E será um verso de amor...

Alexandre O'Neill

domingo, 25 de março de 2012

Poemas perfeitos em noites escuras


Pergunto se não morre esta secreta
música de tanto olhar a água,
pergunto se não arde
de alegria ou mágoa
este florir do ser na noite aberta



Eugénio de Andrade

terça-feira, 20 de março de 2012

A poesia


E foi naquela idade…
A poesia chegou em busca de mim.
Não sei, não sei de onde veio,
Do Inverno ou de um rio.
Não sei como ou quando,
Não, não eram vozes,
Não eram palavras, nem silêncio,
Mas chamaram-me de uma rua,
Dos ramos da noite abruptamente,
Por entre fogos violentos
Ou regressando só,
Ali estava eu sem rosto

E ela tocou-me.

Pablo Neruda


Esta noite


Quando me levantei
já as minhas sandálias andavam
a passear lá fora na relva.
Esta noite
até os atacadores dos sapatos floriram.


Jorge de Sousa Braga

segunda-feira, 19 de março de 2012

Tu disseste


Tu disseste "quero saborear o infinito"
Eu disse "a frescura das maçãs matinais revela-nos segredos insondáveis"
Tu disseste "sentir a aragem que balança os dependurados"
Eu disse "é o medo o que nos vem acariciar"
Tu disseste "eu também já tive medo. muito medo. recusava-me a abrir a janela, a transpôr o limiar da porta"
Eu disse "acabamos a gostar do medo, do arrepio que nos suspende a fala"
Tu disseste "um dia fiquei sem nada. um mundo inteiro por descobrir"
Eu disse "..."

Eu disse "o que é que isso interessa?"
Tu disseste "...nada"

Adolfo Luxúria Canibal

domingo, 18 de março de 2012

sexta-feira, 16 de março de 2012

Amanhecer


Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece...


Clarice Lispector

quinta-feira, 15 de março de 2012

quarta-feira, 14 de março de 2012

Tudo isto


Tudo isto já beijou a dúvida na boca. Tudo isto já fingiu ter tempo para regressar. Tudo isto já supôs que agora seria diferente. Tudo isto já se empenhou em derrotar seis ou sete pessoas. Tudo isto já foi roupa a secar e a proximidade da noite. Tudo isto já encantou o estrangeiro. Tudo isto já se sentou à espera de ver. Tudo isto já rasgou o que não interessava e o que demais interessava. Tudo isto já despiu a vergonha. Tudo isto já foi de avião à sua lucidez futura. Tudo isto já enfrentou o desespero com duas moedas apenas. Tudo isto já se cansou de buscar modos de dizer. Tudo isto já foi mercúrio. Tudo isto já caiu a meio da noite sem que ninguém lhe tocasse. Tudo isto já deu o nome errado. Tudo isto já pediu para trocar tabaco. Tudo isto já se intrometeu. Tudo isto já foi demais para caber num corpo. Tudo isto já mordeu os lábios por lhe sobrar o desejo. Tudo isto já comentou as notícias terríveis a mais de cinco metros de distância. Tudo isto já presenciou a morte e o nascimento. Tudo isto já permitiu que entrasse. Tudo isto já sentiu os nervos como cordas. Tudo isto já deixou alguém adormecer. Tudo isto já inalou o ópio suave do reencontro. Tudo isto já percebeu que pode acontecer.

Vasco Gato

terça-feira, 13 de março de 2012

Nada


Que aconteceu, voltas a perguntar-me. Nada, volto a responder-te.
A resposta que tenho já te havia dado. O resto, que me perdi das palavras nestes últimos dias, que me perdi de mim e não sei por que passos poderei regressar, como explicar-te?


Jorge Roque

segunda-feira, 12 de março de 2012

Previsão do estado do corpo para hoje


Nunca omitir os infortúnios
e contar cada história até
ao fim. Tapar com panos
os espelhos; facas debaixo
da mesa. Consolar a coruja e
trinchar o morcego.
Nunca perder a raiva, aconteça
o que acontecer. Deixar entrar
quem quer que seja.

Hans-Ulrich Treichel

domingo, 11 de março de 2012

Branco como o sul

Não dizias nada


As palavras são as mesmas
mas deixei de saber o tempo
para chegar a ti
durante meses e meses
tinha perdido o hábito
as histórias que de noite sonhas
o evidente esplendor que depois
não tomou nenhuma forma
que razão é a deste amor
que tanto se confunde
com o medo
não dizias nada
tinhas de repente uma pressa desesperada
como quem do mundo inteiro
pretendesse apenas
um cigarro

José Tolentino Mendonça

quinta-feira, 8 de março de 2012

As mulheres


As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.
É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas
Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos
As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.

Daniel Faria

terça-feira, 6 de março de 2012

Os estatutos do amor


1. (Direito a possibilidade)
Que todo o abraço seja contundente como o teu olhar.
Que todo o olhar seja emergente como a tua palavra.
Que toda a palavra seja tão urgente como a tua mão
nos meus cabelos.

2. (Direito ao Espaço e ao Tempo)
Que haja tempo em bloco e não ruptura de tempo.
Que minha ilha seja teu porto e teu porto nos seja santo.
Que a comunhão se faça tanto no beijo como no silêncio.

3. (Direito a Fecundidade)
Que do teu umbigo nasçam flores com seiva de primavera.
Que eu possa viver do seu perfume a sobreviver a sua acidez sem as desflorar.
Que o prazer não precise de extrema-unção mas que a unção do prazer seja
extrema.

4. (Direito a perfeição)
Que a palavra 'amor' nunca seja proferida em vão.
Que o amor venha já feito, perfeito e não por fazer.
Joana Serrado

segunda-feira, 5 de março de 2012

Assim

Nas pálpebras da noite
Chorei cadências que me ensinaram que o Amor
Ama-se
Assim teus Olhos.

Daniel Faria