domingo, 30 de setembro de 2012

Faz de conta


Faz de conta que ela nao estava chorando por dentro,
 pois agora, mansamente, embora de olhos secos,
 o coração estava molhado.


Clarice Lispector

sábado, 29 de setembro de 2012

Não é tarde


O amor é como o fogo, não se propaga onde o ar escasseia. Mas não te preocupes eu fecho mais a porta. Gestos e paveias, acendalhas, o isqueiro funciona! Poderoso combustível é o corpo. Acende deste lado. Ainda não é tarde, foi agora anunciado pela rádio, são dezoito e vinte cinco. Respira-nos, repara, a ilusão de que a vida não se esgota, como os saldos de verão. E a morte, à medida que te despe vai perdendo o nosso número de telefone.


José Miguel Silva

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Dias assim


Meu corpo é como um poço aberto no meio do caminho;
nele alguns lavam o rosto,
lavam nele outros os pés.


Herberto Helder

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Foi no teu amor


Tanto faz


quantas vezes estendi a mão e nela guardei a tua ausência? (…) serás a minha cegueira? só nela te encontro e amo. manhã de ausências, dúvidas, receio de não amanhecer contigo, nunca mais, teu rosto resplandece de luz enquanto eu adormeço, ou morro, tanto faz


 
Al Berto

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Não sei o quê


qualquer coisa se desprendeu de mim.
 alguma. coisa. se. desprendeu de mim.
mas o quê?



Frederico Mira George

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Fora de combate


e dançamos a nossa valsa tão desengonçada,
 embebedamo-nos de saliva até irmos ao tapete.
Já são oito, nove, dez e estamos fora de combate.


  Manuel Cruz

Assim chegou o outono


Depois alguém morreu; a estada tornou-se penosa, o verão parecia não ter fim.
Era tempo de fazer malas e projectos, de trocar pautas por desacertos,
como, no último trimestre do liceu, quem se apaixona e arrepende da solidão que perdeu.
Assim chegou o outono ─ depois alguém morreu.


José Alberto Oliveira

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Poucas palavras


É preciso muito pouca luz para definir um rosto
poucas palavras para que o fascínio desse segundo
torne possível dormir dentro da máquina fotográfica


Al Berto

sábado, 22 de setembro de 2012

Eis o que dói


No coração, talvez, ou diga antes:
Uma ferida rasgada de navalha,
Por onde vai a vida, tão mal gasta.
Na total consciência nos retalha.
  O desejar, o querer, o não bastar,
Enganada procura da razão
Que o acaso de sermos justifique,
Eis o que dói, talvez no coração.


José Saramago

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Vazio


Voltei demasiado sensata, compreensiva, abnegada, perfeita até à náusea. Deixo que te passeies com o teu ar de semental ao banho, à cozinha por um copo de água. Se me perguntas respondo que sim para não entrar em detalhes, para que durmas tranquilo e rendas na oficina. É que a mentira é amiúde mais fácil e espontânea, assim como estarmos juntos. E o meu corpo é muito confortável, com esquinas arredondadas e formas ergonómicas (sem falar do muito que alberga e do pouco que pesa). Não pede nada, não faz perguntas e prefere desconhecer.
Acolchoado de amor, há muito que não sente a cabeça.



Miriam Reyes

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Há sempre alguém que resiste



Quero-me inquieta de sol
a intrangiência da vida
penetrou-me
bastarda de mim mesma
noites incompletas
onde me exijo urgência
 

Maria Teresa Horta

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Disseram-me que


Preciso de amor a conta-gotas,
estou a soro,
e já não tenho pele onde espetar tanta agulha.



Miguel Martins

sábado, 8 de setembro de 2012

Declaração de amor ao primeiro ministro




Estou apaixonado pelo primeiro-ministro por todos os primeiros-ministros e pelos segundos e pelos terceiros estou apaixonado por todos os presidentes de Câmara e de Junta por todos os benfeitores de obra feita por todos os que erguem e mandam erguer estradas, pontes, casas, estádios, fontanários, salões paroquiais estou apaixonado por todos aqueles que governam, que executam, que decidem sem pestanejar por todos aqueles que dão o cu pela causa pública que se sacrificam pelo bem comum sem nada pedir em troca. Quero votar entusiasticamente em todos eles afogá-los em votos até que se venham em triunfo Estou apaixonado pelo primeiro-ministro quero vê-lo num bacanal com todos os ministros e todos os ministérios a arfar de prazer a enrabar o défice, o orçamento, o IVA, a inflação, a recessão ágil e empreendedor como um super-homem Estou apaixonado pelo primeiro-ministro Quero vê-lo num filme porno.



A. Pedro Ribeiro

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Porque eu


Sempre tive medo de partir sem asas.


Al Berto

É


é. contra a ausência. é assim que hoje enumero todas as coisas que me dizem de ti. com a urgência de reter a memória delas. para que o meu corpo não perca essa sombra que se projecta quando caminho. e silenciosamente asas me cresçam. antes.


Al Berto

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Intuição


 
Ter nas pessoas
a confiança dos gatos,
que fecham os olhos
  e esticam o pescoço,
  na certeza do carinho.


  Leila Míccolis

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Das coisas que não sabemos mudar


 
Voltemos a isto, ao cálculo dos danos na máquina do mundo, à impotência do riso contra tudo o que não sabemos mudar: a morte, o egoísmo, o levadiço coração humano. Porque não há mais nada (ok, há o amor – vai-te foder) e nos negócios da razão o pessimismo é a moeda do momento. Regressemos ao ruído, à sombria comissão liquidatária desta fábrica de trapos coloridos. Se não há melhor emprego para a culpa e os domingos custam dias a passar.


José Miguel Silva

domingo, 2 de setembro de 2012

Há Palavras que Nos Beijam


Como se tivessem boca
 (..)
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto
(..)
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)


Alexandre O'Neill,

sábado, 1 de setembro de 2012

Dias assim



É Junho? É Setembro?
  É um dia
em que estou carregado de ti
ou de frutos,
e tropeço na luz, como um cego,
a procurar-te.


Eugénio de Andrade