segunda-feira, 26 de julho de 2010

Morada secreta


Na orla do mar, no rumor do vento, onde esteve a linha pura do teu rosto ou só pensamento ( e mora, secreto, intenso, solar, todo o meu desejo) aí vou colher a rosa e a palma.
Onde a pedra é flor,onde o corpo é alma.


Eugénio de Andrade

Do sentir


Não penso para onde foste porque o meu peito, sem ti, fica atravessado por lâminas, tenho um silêncio dentro.
Toco os sítios onde estiveram as tuas mãos.
Sinto o que sentiste.

José Luís Peixoto

sexta-feira, 23 de julho de 2010

O meu sul

Se o pulmão fora pétala e a rosa um campo minado e a casa o coração da música serias tu o meu sul na volátil geografia do caminho certo.se nada nos distraísse da miséria e das patas sobre o corpo e dos segredos irredutíveis numa página de temperatura gelada serias o meu sentido único sobre as cinzas.




Isabel Mendes Ferreira

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Não sei

à procura das chaves do carro, a revolver a mala. na ponta da caneta e no azul do tinteiro. a arrumar toalhas e lençóis no armário. a pensar nas pessoas que fazem palavras cruzadas, jogam sudoku. ontem. na chama da vela sobre a peanha. a passear na linha de um verso e a descer por um poema, a descer no elevador, a descer o Chiado. na chávena do leite quente, na porta do micro ondas. nos headphones da Fnac. hoje. nas camisas e gravatas nas prateleiras das lojas. na água que corre das torneiras de casa. no tempero de sal. não sei de um eu onde não estejas.




Eugénia de Vasconcellos

terça-feira, 20 de julho de 2010

Silêncio

Se me pedisses de repente e aqui:
"fala das luas e dos dias",
eu
nem falaria, diria só que estar contigo
é estar-me

Ana Luísa Amaral

sexta-feira, 16 de julho de 2010

terça-feira, 13 de julho de 2010

Quem sabe...

Não, não aprenderei nunca
a decepar flores.
Quem sabe, um dia,
eu, em mim, colha um jardim?





Mia Couto

domingo, 11 de julho de 2010

Amante


Se a medida do meu tempo
É esperar-te até ao fim
Quero ser a voz do vento
Quando estás longe de mim
Aldina Duarte

quinta-feira, 8 de julho de 2010

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Cálice

O meu corpo
como se fosse o cálice
o meu sangue como se fosse o vinho
estas as palavras da vida eterna
até que dure
o sopro que as insufla
do pó em que se desfazem
esse pó que enegrece o cálice
o cálice donde escorre o vinho.

Ana Paula Inácio

segunda-feira, 5 de julho de 2010

A noite pede musica

Sul


Era Verão, havia o muro.
Na praça, a única evidência
eram os pombos, o ardor
da cal. De repente
o silêncio sacudiu as crinas,
correu para o mar.
Pensei: devíamos morrer assim.
Assim: explodir no ar.


Eugénio de Andrade

domingo, 4 de julho de 2010