quinta-feira, 27 de junho de 2013

O índice dos teus dedos


Do sofá ainda tão gasto
entre as duas portas,
agora parecem mais:
todos no chão da sala,
volumes em resma,
tamanhos variáveis,
desalinhados,
no lugar dos tacos regulares,
escondem-nos.
Os livros todos, o chão da sala,
pequenas torres impressas,
legos impossíveis:
os que foram
desconhecidos nesta morada,
as dádivas secretas,
o sítio das palavras que não regressaram.
No canto superior direito,
o índice dos teus dedos,
a tua sombra em tantas páginas.




Margarida Ferra

quarta-feira, 26 de junho de 2013

segunda-feira, 24 de junho de 2013

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Noites tão curtas


a página seguinte está em branco
  mas lembro-me que te agarrei a mão e disse:
  todos os cigarros do mundo são para ti




Al Berto

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Promessas


Prometo-te a palma da minha mão para a escrita.
Cerca-a de magnólias, cerca-me. Podes fechar a escrita
No interior da mão ou na boca dos livros
Podes esquecê-la ou libertá-la dos mil botões
Que ela sopra no interior dos homens.
Podes mandá-la àqueles que mais amas
Ou como pétalas e mensagens nas anilhas das aves
Aos teus próprios inimigos.
Podes desarmá-la para propagares as chamas.
Dou-te, como desde sempre, o poder
De escreveres na pele da minha mão
As promessas que te fiz.
Sabes que existo
E que vou repetir-te todas as coisas outra vez.



Daniel Faria

terça-feira, 18 de junho de 2013

As coisas

 

São feitas de vidro.
Partem-se quando digo em voz alta
o teu nome. Nome de todas as coisas




Inês Fonseca Santos

domingo, 16 de junho de 2013

Será que

 
(...)
Tu que te estatelas agora no céu de cada noite deserta, será que algum dia tornarás a ler o céu no chão?
Será que em alguma papelaria escondida na cidade, encontrarei um dia um mapa para te ler sem te sufocar?
 Tu que me tropeças cada passo, será que tens ainda em ti, o único pulmão que já me fez respirar?
Nada sei de mim. Mas sei quem tu és.
És a única pergunta que não formulei.
Será que ao menos sabes que eu não sei?




Manuel Cintra

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Eu


Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta
ao pé de uma parede sem porta.




Fernando Pessoa  (Álvaro de Campos)
Foto  de   Francesca Woodman
 

quinta-feira, 13 de junho de 2013

E nunca mais


Na música que é tua,
meus lábios torrenciais
caem pesados, duros.
E nunca mais.
Despenham-se a prumo:
vidros ou punhais.
Arrastam-te ao fundo.
E nunca mais.



Eugénio de Andrade

terça-feira, 11 de junho de 2013

 

Duas árvores de avanço,
  Uma corrida louca ....
... E o teu coração na minha boca !
 
 

Alexandre O'Neill

domingo, 9 de junho de 2013

Noite


Resta-nos adormecer onde eclode a borboleta
e balbuciar dentro do sonho as palavras que nunca ousaremos dizer.



Al Berto

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Em forma de asas


Como um velho comerciante de carros falido
parecias saído de um filme de Tarantino.
Com as minhas plumas em forma de asas
e a maquilhagem de anjo doente
parecia saída de um filme de Wenders caído.
Relativamente às plumas, em forma de asas,
trazia os cálculos anotados
da distância a manter do Sol
e a imagem de Ícaro em chamas.
Mas naquele dia tudo correu mal.
O que poderíamos fazer de diferentes filmes saídos?
E choveu.
E o nevoeiro nem um cometa deixou ver.
A minha maquilhagem desfez-se,
confundiu-se com os veios das plumas
que se colaram à minha coluna vertebral
como um colete de forças.
E tu velho comerciante
já não me pudeste enganar
e vender um artefacto voador
por um coração ferido



Ana Paula Inácio

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Fogo posto


mão tão feliz de ter tocado
  teu corpo atento ao meu desejo
 
 


Herberto Helder  (Servidões)

terça-feira, 4 de junho de 2013

Que queriam fazer de mim?


Uma palavra, um gemido obsceno,
Uma noite sem nenhuma saída,
Um coração que mal pudesse
Defender-se da morte ,
Uma vírgula trémula de medo
Num requerimento azul, azul,
Uma noite passada num bordel
Parecido com a vida , resumindo
Brutalmente a vida!
(...)



Alexandre O'Neill