quinta-feira, 30 de julho de 2009

Juro....


Este senhor canta esta noite em lisboa
Eu não estarei entre aqueles para quem esta noite ele cantará
Mas juro que uma manhã acordei com ele a cantar-me esta musica ao ouvido......

quarta-feira, 29 de julho de 2009

terça-feira, 28 de julho de 2009

Dias assim



Porque pertenço à raça daqueles que mergulham de olhos abertos

E conhecem o abismo pedra a pedra,

anémona a anémona,

Flor a flor


Sofia de Mello Breyner Anderson

domingo, 26 de julho de 2009

Estranha-se?


[...]
Canto sempre assim, despida.

Estranha-se?
Eu pergunto: a gente não se despe para amar? Por que não ficar nua para outros amores?
A canção é só isso: um amor que se consome em chama entre o instante da voz e a eternidade do silêncio, desenhável segundo tonalidades de música.
...
Cantando eu convoco um certo homem. Um apanhador de pérolas, vasculhador de maresias. Esse homem acendeu a minha vida e eu sigo por iluminação desse sentimento. O amor, agora sei, é a terra e o mar se inundando mutuamente.
...
Minha vida se tornava tão densa que o tempo sofria enfarte, coagulado de felicidade. Só esse homem servia para meu litoral, todas vivências que eu tivera eram ondas que nele desmaiavam.
...
Perdi o búzio e o mar que ecoava dentro. Ele embarcou... Na despedida, ele me pediu que cantasse. Vejam-se as aves quando migram. Choram? O que elas não prescindem é do canto.
- E porquê? - perguntou o peroleiro. O gorjeio, explicou ele, é a âncora que os pássaros lançam para prenderem o tempo, para que as estações vão e regressem como marés.
- Você cante para chamar meu regresso.
...
Minha vida foi um esperadouro. Estive assim, inclinada como praia, mar desaguando em rio, mar naufragado.
- Esse homem me lançou um bom-olhado? Me socorria a lembrança de seus braços como se fossem a parte do meu próprio corpo que me faltasse resgatar. Para sempre me ficou esse abraço. Por via desse cingir de corpo a minha vida se mudou. Depois desse abraço trocou-se, no mundo, o fora pelo dentro. Agora, é dentro que tenho pele. Agora, meus olhos se abrem apenas para as funduras da alma. Todo este tempo me madreperolei, me enfeitei de lembrança.
...
Minha única salvação será, então, cantar, cantar como ele me pediu. Entoarei a mesma canção da despedida. Para que ele se debruce em mim para me levar
.
[...]
 
Mia Couto



quarta-feira, 22 de julho de 2009

Há musicas perfeitas...

<
Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus, juro que não acreditei
Eu te estranhei, me debrucei Sobre o teu corpo e duvidei
E me arrastei, e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
No teu peito, teu pijama
Nos teus pés, ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho
Dei prá maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que ainda sou tua
Até provar que ainda sou tua.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Faltas-me...



Se aqui estivesses isto não seriam palavras...

Dias estranhos



 Comecei a desaparecer no dia em que os meus olhos se afundaram nos teus.
Agora que os teus olhos se fecharam sei que não voltarás a devolver-me os meus.


Inês Pedrosa

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Fazes-me falta

"Porque te escolho, neste sussurro sem retorno?
Porque te quero no meu sono, se iluminaste sobretudo o que não fui?
(...) Arrumar os amores, é a primeira regra da vida - saber arquivá-los, entendê-los, contá-los, esquecê-los.
Mas ninguém nos diz como se sobrevive ao murchar de um sentimento que não murcha. (...) quando o amor nasce protegido da erosão do corpo,
apenas perfume, contorno, coreografado em redor dos arco-íris
dessa animada esperança a que chamamos alma
- porque se esfuma?
Como é que, de um dia para o outro, a tua voz deixou de me procurar,
e eu deixei que a minha vida dispensasse o espelho da tua?(...)
Em que dia me abandonaste?
Em que palavra a minha voz se partiu?
Que sombra se abriu por dentro dos teus olhos para despedaçar a minha imagem?
Foi sem querer.
Se deixei de te comover, de te divertir, de te inspirar, meu querido, foi sem querer.
(...) Foi sem querer que se calhar não fui mesmo capaz..."


Inês Pedrosa, in Fazes-me Falta








quinta-feira, 16 de julho de 2009

Hoje acordei assim...


Deixa em cima desta mesa a foto que eu gostava
Pr'eu pensar que o teu sorriso envelheceu comigo
Deixa eu ter a tua mão mais uma vez na minha
Pra que eu fotografe assim meu verdadeiro abrigo
Deixa a luz do quarto acesa a porta entreaberta
O lençol amarrotado mesmo que vazio
Deixa a toalha na mesa e a comida pronta
Só na minha voz não mexa eu mesmo silencio
Deixa o coração falar o que eu calei um dia
Deixa a casa sem barulho achando que ainda é cedo
Deixa o nosso amor morrer sem graça e sem poesia
Deixa tudo como está e se puder, sem medo
Deixa tudo que lembrar eu finjo que esqueço
Deixa e quando não voltar eu finjo que não importa
Deixa eu ver se me recordo uma frase de efeito
Pra dizer te vendo ir fechando atrás da porta
Deixa o que não for urgente que eu ainda preciso
Deixa o meu olhar doente pousado na mesa
Deixa ali teu endereço qualquer coisa aviso
Deixa o que fingiu levar mas deixou de surpresa
Deixa eu chorar como nunca fui capaz contigo
Deixa eu enfrentar a insônia como gente grande
Deixa ao menos uma vez eu fingir que consigo
Se o adeus demora a dor no coração se expande
Deixa o disco na vitrola pr'eu pensar que é festa
Deixa a gaveta trancada pr'eu não ver tua ausência
Deixa a minha insanidade é tudo que me resta
Deixa eu por à prova toda minha resistência
Deixa eu confessar meu medo do claro e do escuro
Deixa eu contar que era farsa minha voz tranqüila
Deixa pendurada a calça de brim desbotado
Que como esse nosso amor ao menor vento oscila
Deixa eu sonhar que você não tem nenhuma pressa
Deixa um último recado na casa vizinha
Deixa de sofisma e vamos ao que interessa
Deixa a dor que eu lhe causei agora é toda minha
Deixa tudo que eu não disse mas você sabia
Deixa o que você calou e eu tanto precisava
Deixa o que era inexistente e eu pensei que havia
Deixa tudo o que eu pedia mas pensei que dava


Oswaldo Montenegro

terça-feira, 14 de julho de 2009

Dá-me amor ou ódio...

Dá-me Amor ou Ódio
Faz ou desfaz o meu coração
Dá-me Amor ou Ódio
Salva-me ou mata-me de paixão.
Se o amor é fogo,
Atira-me à fogueira, sem piedade
Se no amor há um dono,
Escraviza-me até à eternidade.
Porque o tempo é feito de ti e mim,
E tudo o resto é demais
Amor ou Ódio
Tanto me faz,
Deus e Diabo querem assim
Assim será

Mundo Cão

sexta-feira, 10 de julho de 2009

quinta-feira, 9 de julho de 2009

A espera



Antes de saíres olhaste para este relógio e disseste que voltavas ao início da noite. Eu não te perguntei a que horas voltavas. Disseste que voltavas às nove. Eu estava a ler, sabia que ias sair, esperava que fosses sair e não olhei para o relógio. Tínhamos acordado às duas da tarde. Tínhamos comido. Eram três horas da tarde. Olhei-te quando aproximaste o teu rosto, os teus lábios para nos beijarmos. Não te olhei quando saíste mas, agora, consigo imaginar a porta depois de a teres fechado, os teus passos a desaparecerem nos degraus da escada e, depois, o silêncio sem ti. Consigo até imaginar-te na rua. As tuas mãos sobre a mala que compraste, os teus passos. Talvez te tenha imaginado durante alguns instantes depois de saíres. . No entanto, se o fiz, essas imagens misturam-se com aquilo que lia e com a certeza de saíres e de ter de aprender a estar sem ti algumas horas. Demorei meia hora até olhar para o relógio, este relógio, o mesmo para onde olhaste antes de saíres quando disseste que voltavas às nove. Tinha passado meia hora e, por isso, continuei a ler. Tentei não pensar que faltava mais de dez vezes o tamanho daquele tempo que passei sem ti até te ver de novo. Continuei a ler, mas tu estavas no fim de cada parágrafo, escondida entre as frases, no momento de virar uma página. Tentei não olhar para o relógio. Olhei para o relógio eram cinco horas, eram seis e meia, eram sete e meia. Às oito horas, pousei o livro e comecei a esperar-te. Fiquei sentado neste sofá, nesta sala, a esperar-te. São onze horas. Agora, sou eu que me vou embora. Quando regressares, se regressares, não me irás encontrar. Nunca mais. Não me encontrarás nem a mim, nem a este bilhete de despedida que pensei deixar-te, mas que vou rasgar já em seguida.

José Luís Peixoto

Eu pensava que o amor era eterno.....

Funeral Blues
W.H. Auden

Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.
Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He is Dead.
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.
He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong.
The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the woods


For nothing now can ever come to any good.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Frágil o coração



Frágil o coração
Tão frágil que se partiu

Quem me leva os meus fantasmas



De que serve ter o mapa

Se o fim está traçado,

De que serve a terra à vista

Se o barco está parado,

De que serve ter a chave

Se a porta está aberta,

De que servem as palavras

Se a casa está deserta ?......




terça-feira, 7 de julho de 2009

Ternura



Um dia, quando a ternura for a única regra da manhã,

acordarei entre os teus braços.

a tua pele será talvez demasiado bela.

e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor.

um dia, quando a chuva secar na memória,

quando o inverno for tão distante,

quando o frio responder devagar como a voz arrastada de um velho,

estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da nossa janela.

sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso será culpa minha,

porque eu acordarei nos teus braços e não direi nem uma palavra,

nem o princípio de uma palavra,

para não estragar a perfeição da felicidade


 José Luís Peixoto

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Hoje acordei assim...


Me está doliendo una pena
Me está doliendo una pena y no la puedo parar y se revuelve en silencio tumba abierta en soledad y quiero hacerla cometa, para poderla volar.
Me está ganando ésta pena y la quiero ceder y busca por ser palabra y es por hacerse entender en brazos de mi guitarra y la tengo que esconder y en mi guitarra quisiera dejar la pena llorar, hacerla surco en el tiempo hacerla tiempo en la mar.
Ser con la mar un viento que se la pueda llevar.
Me está doliendo ésta pena acuñada en el portal de éste vacío sonoro que no sabe a dónde va, de éste vacío que lloro por quererlo remediar, y en mi guitarra quisiera dejar la pena llorar romper la monotonía de éste pueblo en carnaval, de éste pueblo que me duele cada día más y más y es que es una inmensa pena que me tengo que callar.
Me está doliendo una pena......... y me tengo que callar.


PATXI ANDION.

domingo, 5 de julho de 2009

Há dias assim



Saber o que se tem


Saber do que se precisa


Saber do que não se pode prescindir 


ana p.

Amores


Leio sempre muito devagar os livros que amo
Tenho sempre tanto medo de lhes gastar as palavras.....






" Vês como fico pequena quando escrevo para ti?
É por isso que nunca poderia ser poeta.
O poeta se engrandece perante a ausência, como
se a ausência fosse o seu altar, e ele ficasse maior
que a palavra.
No meu caso , não, a ausência me deixa submersa, sem acesso a mim.
Este é o meu conflito: quando estás não existo, ignorada.
Quando não estás , me desconheço, ignorante.
Eu só sou na tua presença.
E só me tenho na tua ausência.
Agora, eu sei. Sou apenas um nome.
Um nome que não se acende senão em tua boca...."



Mia Couto _ Jesusalém

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Paixões


Agonia
dos lentos inquietos
amarelos,
a solidão do vermelho
sufocado,
por fim o negro,
fundo espesso,
como no Alentejo

o branco obstinado


Eugénio de Andrade

Ha musicas perfeitas para o que não sabemos dizer

Só tu sabes.....


Fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto
dentro de mim: será que vou morrer?, olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.

Jose Luis Peixoto

quarta-feira, 1 de julho de 2009