domingo, 26 de julho de 2009

Estranha-se?


[...]
Canto sempre assim, despida.

Estranha-se?
Eu pergunto: a gente não se despe para amar? Por que não ficar nua para outros amores?
A canção é só isso: um amor que se consome em chama entre o instante da voz e a eternidade do silêncio, desenhável segundo tonalidades de música.
...
Cantando eu convoco um certo homem. Um apanhador de pérolas, vasculhador de maresias. Esse homem acendeu a minha vida e eu sigo por iluminação desse sentimento. O amor, agora sei, é a terra e o mar se inundando mutuamente.
...
Minha vida se tornava tão densa que o tempo sofria enfarte, coagulado de felicidade. Só esse homem servia para meu litoral, todas vivências que eu tivera eram ondas que nele desmaiavam.
...
Perdi o búzio e o mar que ecoava dentro. Ele embarcou... Na despedida, ele me pediu que cantasse. Vejam-se as aves quando migram. Choram? O que elas não prescindem é do canto.
- E porquê? - perguntou o peroleiro. O gorjeio, explicou ele, é a âncora que os pássaros lançam para prenderem o tempo, para que as estações vão e regressem como marés.
- Você cante para chamar meu regresso.
...
Minha vida foi um esperadouro. Estive assim, inclinada como praia, mar desaguando em rio, mar naufragado.
- Esse homem me lançou um bom-olhado? Me socorria a lembrança de seus braços como se fossem a parte do meu próprio corpo que me faltasse resgatar. Para sempre me ficou esse abraço. Por via desse cingir de corpo a minha vida se mudou. Depois desse abraço trocou-se, no mundo, o fora pelo dentro. Agora, é dentro que tenho pele. Agora, meus olhos se abrem apenas para as funduras da alma. Todo este tempo me madreperolei, me enfeitei de lembrança.
...
Minha única salvação será, então, cantar, cantar como ele me pediu. Entoarei a mesma canção da despedida. Para que ele se debruce em mim para me levar
.
[...]
 
Mia Couto