domingo, 30 de outubro de 2011

E agora ?




Da paixão cansei-me (pode acolher tanta morte um corpo, esse mesmo que brilha à luz do desejo, esse mesmo que guarda a promessa da alegria). A verdade gastou-se (isto é o mais fácil de compreender: a verdade gasta-se, quando chegamos ao lugar de a encontrar, sabemos por fim que não existe). Sobrou o que sou e o que não sou também, pelo meio a linha de uma estreita solidão, e é isto que te dou (isto o que te posso dar). Só aqui, só agora, este sorriso de estar vivo, e por vezes o cansaço (que embora não pareça faz parte do sorriso).

E agora já me entendes?

E agora ainda me queres?

Jorge Roque

sábado, 29 de outubro de 2011

Do sul


O branco branquíssimo do muro :
a beleza concreta, acidulada,
do rigoroso espírito do sul

Eugénio de Andrade

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

E os dias todos iguais


gala royal, green smith, red delicious, golden, reineta, pink lady, starking, tantas maçãs diferentes e os dias todos iguais, nunca uma promoção, na compra de uma semana completa ganhe 20% de dia, ou compre dois dias felizes e leve três, nunca um brinde para clientes habituais, três horas com o formato de primavera, ou um expositor com dias defeituosos em saldo, uns minutos desperdiçados ou umas horas adormecidas, descontos, dias mais baratos, se os dias não possuíssem a monótona qualidade de serem todos iguais podiam vender-se na secção dos hortícolas, dias alegres, melancólicos, terríveis, correntes, calmos, murchos, dias 100% biológicos, embalados ou avulso, tantas maçãs diferentes e os dias todos iguais.



Dulce Maria Cardoso

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Escolhas


Meu corpo
é uma floresta fechada
onde escolheste o caminho

Depois de te perderes
guardaste a chave e o provérbio.



Ana Paula Tavares

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Viagens íntimas




E vou-me embora com ar de borboleta triste, depois da chuva, e volto mais tarde de peito cheio de rosas.


Manuel Cintra

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Anotações




Quando atirei a minha roupa suja para a cave
esqueci-me que guardava um punhado de ideias no bolso de trás das calças,
quanto tirei a roupa da máquina de lavar encontrei-as espalhadas
em pedaços de papel totalmente ilegíveis.
Desde essa altura tudo me sussurra que estou louca
porque rezo no oposto a um deus que já não existe,
e porque me aparecem estigmas nas mãos
e me vêm ver desconhecidos que comigo passam as noites.
As minhas palavras afogaram-se em saponária
e não consigo encontrar-lhes o rasto na minha cabeça.
As letras que surgiram dos meus dedos que anotei nos papéis que guardei no meu bolso
eram a minha direcção, o meu nome, o título de um livro,
as línguas que falo, as coisas que não digo.
Eram fórmulas mágicas para sobreviver ao quotidiano,
como abrir o correio e dar os bons dias,como não abrir a porta ao homem sedutor
que nunca se reflecte nos espelhos.
Tudo o que anotava eram pequenas pistas que seguia para juntar as partes do meu corpo,
para não me enganar e para saber quem sou sem ter que pensar duas vezes
.


Ana Merino


sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Sexta feira


Tranquila Sexta-feira
abandonada Sexta-feira
Sexta-feira cada vez mais triste como ruelas antigas
Sexta-feira de indolentes pensamentos indispostos
Sexta-feira de sinuosos e nefastos espreguiçamentos
Sexta-feira de nenhuma expectativa
Sexta-feira de rendição.
Casa vazia
casa solitária
casa trancada contra a investida da juventude
casa da escuridão e ânsias de sol
casa de solidão, augúrio e indecisão
casa de cortinas, livros, guarda-louça, fotografias.
Ah, como a minha vida fluiu silenciosa e serena
como uma corrente profunda
através do coração dessas silenciosas, abandonadas Sextas-feiras
através do coração dessas tristes casas vazias
ah, como a minha vida fluiu silenciosa e serena
.


Forough Farrokhzad
(Versão de Vasco Gato)



quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Das noites




Deixa que os meus olhos se fechem
E confiem um minuto nos teus...
Olha por mim, proteje o meu sonho
Vigia o meu descanso e afasta-me de todas as mágoas
Deixa que os meus olhos durmam nos teus...

Albano Martins

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Auto retrato





Essa mulher é uma casa secreta.
Em seus cantos, guarda vozes e esconde fantasmas.
...
Quem entra nela, dizem, não sai nunca mais.


Eduardo Galeano

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

domingo, 16 de outubro de 2011

A dança dos erros




Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

Clarice Lispector



sexta-feira, 14 de outubro de 2011

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Do avesso




Quando estou mal disposta
(e estou-o muitas vezes...)
mudo o sentido às frases,
complico tudo...

Alexandre O'Neill

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Noites Assim


...
é noite de não te saber
entre os meus braços
da falta de ti à minha volta
e dentro

é noite aguda

Eugênia Fortes

terça-feira, 4 de outubro de 2011

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

A paixão


Saímos do amor como dum desastre aéreo
Tínhamos perdido a roupa os documentos
a mim faltava-me um dente e a ti a noção do tempo
Era um ano longo como um século ou um século curto como um dia?
Por cima dos móveis pela casa só despojos quebrados: copos retratos livros desfeitos
Éramos sobreviventes duma derrocada dum vulcão de correntes enfurecidas
e despedimo-nos com a vaga sensação de termos sobrevivido mas não sabíamos para quê.

Cristina Peri Rossi

domingo, 2 de outubro de 2011