segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

sábado, 28 de dezembro de 2013

Esta noite


Hoje podes deitar-te na minha cama e contar-me mentiras - dizer, não sei, que o amor tem a forma da minha mão ou que os meus beijos são perguntas que não queres que ninguém te faça senão eu; que as flores bordadas na dobra do meu lençol são de jardins perfeitos que antes só existiam nos teus sonhos; e que na curva dos meus braços as horas são mais pequenas do que uma voz que no escuro se apagasse. Hoje podes rasgar cidades no mapa do meu corpo e inventar que descobriste um continente novo - uma pátria solar onde gostavas de morrer e ter nascido. Eu não me importo com nada do que me digas esta noite: amo-te, e amar-te é reconhecer o pólen excessivo das corolas, o seu vermelho impossível. Mas amanhã, antes de partires, não digas nada, não me beijes nas costas do meu sono. Leva-me contigo para sempre ou deixa-me dormir - eu não quero ser apenas um nome deitado entre outros nomes.





Maria do Rosário Pedreira

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Esperarei por ti


até que todas as coisas sejam mudas
 
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.



 

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Nós aqui


Ainda bem que o natal acabou
logo que soaram as doze
descolei os lábios da mesa
vomitei as doçarias todas
para cima das notícias
que anunciavam a morte
algures onde o natal
é regado com sangue
e as rolhas das garrafas
são tiros cegos e certeiros
matam velhos e crianças
em natal ou em belém
para o ano haverá mais
se a dor aguentar até lá
nós aqui e eles no inferno
uma data é uma data
e é preciso comemorá-la
com sangue e com lágrimas
um dia os meus lábios ficarão para sempre
agarrados à toalha de linho.




Carlos Alberto Machado

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Poema de Natal


Assinaste o teu nome
em papel sufocante
impressão bem à vista
xis escudos por página
um livro repleto
de palavras amestradas
pra oferecer no Natal
ou isso ou umas peúgas.




Carlos Alberto Machado

sábado, 21 de dezembro de 2013

Pergunto


Quando repousarei
Ausente sem sofrer
Qualquer ausência?




   Daniel Faria
 (foto de Katia Chausheva)

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

A palavra que se apaga

 

Chora-se por alguém, chora-se, embora eu chore a olhar para mim a chorar, chora-se para que nos digam: não chores, ou para que nos oiçam, mas este choro não ouvido, este choro não visto, anónimo, só um corpo a chorar sem remédio, o choro omitido das desatenções, o choro esquecido no choro, nos seus meandros, mudez e surdez, este choro, sem lugar de choro, é a palavra última, apaga-se nela, este choro é a palavra que se apaga.




Rui Nunes

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Poemas perfeitos em noites escuras

 

desenha com a ponta dos teus dedos
as fronteiras exactas do meu rosto
as rugas, os sinais, a cicatriz que ficou da infância
o lento sulco das lâminas onde no peito
se enterra o mistério do amor
e diz-me o que de mim amaste
noutros corpos, noutras camas, noutra pele
prometo que não choro
mas repete as palavras um dia minhas
que sem querer misturaste nas tuas
e levaste com as chaves de casa e os documentos do carro-
e largaste sobre a mesa com o copo de gin a meio
na primeira madrugada em que me esqueceste





Alice Vieira

domingo, 15 de dezembro de 2013

Calendário das Dificuldades Diárias

 

Mais uma queda. Mais uma lasca de madeira cravada no corpo. Estacas de travar vampiros, sêdes. Ossos esmagados, sinapses rotas e, sempre, o fígado fosfórico. De cada vez, a dúvida absoluta. A suspensão da vida. A estupidez mais iníqua amesquinhando a nossa suposta divindade. Transplante? Broa dura? Pastéis de massa tenra de efémeros perfumes? Escolha-me o Diabo a sorte! Tudo poderia ter sido banal, banal e generoso, tivera eu chegado três gerações mais cedo. Vejo-me, à chuva, a apanhar ouriços sob os castanheiros. Analfabeto. São. Vejo-me e não me vejo em parte alguma. Muito menos aqui. Ainda menos agora. Ah!, quem me dera perder, ao menos, a memória dos castanheiros que nunca toquei, que apenas de relance pude amar




  Miguel Martins

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

A minha vida

 

comecei dezenas de histórias
e não terminei nenhuma,
não sei para onde vão as minhas personagens
porque começam a falar
e logo se calam.
no papel sucede-me o mesmo que fora dele:
a minha vida é um punhado de começos
suspensos




   Miriam Reyes
  (tradução de Maria Sousa)

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Eu diria que sangra um ponto secreto do meu corpo


Bate-me à porta, em mim, primeiro devagar.
Sempre devagar, desde o começo, mas ressoando depois,
ressoando violentamente pelos corredores
e paredes e pátios desta própria casa
que eu sou. Que eu serei até não sei quando.
É uma doce pancada à porta, alguma coisa
que desfaz e refaz um homem. Uma pancada
breve, breve -
e eu estremeço como um archote. Eu diria
que cantam, depois de baterem, que a noite
se move um pouco para a frente, para a eternidade.
Eu diria que sangra um ponto secreto
do meu corpo, e a noite estala imperceptivelmente
ou se queima como uma face. Escuta:
que a noite vagarosamente se queima
como a minha face.





Herberto Helder

domingo, 8 de dezembro de 2013

Era meu


Surgiu
Por detrás
Da nuvem escura
Que tapou a lua.
Escorregou
Sobre a planície,
Negro,
Envolto
Em longas
Chamas.
Era meu.
Pertencia-me.
Era o medo.
 
 
 

  Maria Amélia Neto
 (Foto de Katia Chausheva)

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Madiba


Do fundo desta noite que persiste
A  envolver-me em breu - eterno e espesso,
A qualquer deus - se algum acaso existe,
Por mi’alma insubjugável agradeço.
Nas garras do destino e seus estragos,
Sob os golpes que o acaso atira e acerta,
Nunca me lamentei - e ainda trago
Minha cabeça - embora em sangue - ereta.
Além deste oceano de lamúria,
Somente o horror das trevas se divisa;
Porém o tempo, a consumir-se em fúria,
Não me amedronta, nem me martiriza.
Por ser estreita a senda - eu não declino,
Nem por pesada a mão que o mundo espalma;
Eu sou dono e senhor de meu destino;
Eu sou o comandante de minha alma.




 William Ernest Henley

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Um Diário destes não magoa



Um Diário destes não magoa, pensa a rapariga, folheando
O seu caderno: Apaga os passos que dei até aqui.
E imagina que a espera um espaço imenso. Páginas adiante,
A letra torna-se irregular, a simetria esvai-se confusa.
Não foi, certamente, o espaço que dela se abeirou. Não.
Também não foi o amor, como se poderia pensar.
Foi o Género. Pegou no Diário e fê-lo romance. É assim.
Só estranho o novo corpo que lhe foi dado.




Maria Gabriela Llansol
(Foto de Katia Chausheva)

Porque há lugares que eu gosto tanto   ( http://sketchesformysweetheartthedrunk.blogspot.pt/)

sábado, 30 de novembro de 2013

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Eu direi o teu nome


todos os monstros têm o teu nome, de mais ou menos bocas, grandes ou pequenas milhares de patas, sangue jorrando ou líquenes desfeitos, todos os monstros têm o teu nome e por ofício perseguem-me, entram por mim no soalheiro mundo dos homens, usam a minha incúria eu sou uma esplendorosa borboleta de sangue. um ser que voa no coração e cada monstro virá dizer que me ama e saberá convencer-me a suportar os seus tentáculos, a apreciar até os beijos nos orificios mucosos por onde expele a língua e será capaz de me fazer querer o esbracejar nocturno dos seus gestos e eu direi o teu nome e nunca me enganarei











valter hugo mãe

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Prémio


Vales, ravinas, desertos,
e fins de semana, livros a mais,
amigos a menos, noites
de fumo, de corpos alheios,
de novo ravinas, desertos
e vales - eu nunca pensei
que fosse tão longe e que fosse
tão pouco a felicidade:
ovos mexidos, arroz de tomate,
o ir a correr quando o filme começa,
o vem para a cama, um sopro
de mel, e novas legendas no álbum
de fotos - eu nunca pensei
que fosse tão alto este único prémio
de consolação.




José Miguel Silva

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Apesar de tudo


Como lobos em períodos de seca
crescemos por toda a parte
amámos a chuva
amámos o outono
um dia até pensámos
em enviar uma carta de agradecimento ao céu
com uma folha de outono como selo de correio
acreditávamos que as montanhas desapareceriam
os mares se dissipariam
apenas o amor seria eterno
 
de súbito separámo-nos
 
ela gostava de sofás compridos
e eu de longos navios
ela gostava de sussurrar e suspirar nos cafés
eu gostava de saltar e gritar nas ruas
e, apesar de tudo,
os meus braços vastos como o universo
estão à espera dela.




Muhammad Al-Maghut

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

NÃO

 

 
 
"Na riqueza e na pobreza, no melhor e no pior, até que a morte vos separe."
Perfeitamente.
Sempre cumpri o que assinei.
Portanto, estrangulei-a e fui-me embora.


 
Mário-Henrique Leiria

domingo, 24 de novembro de 2013

sábado, 23 de novembro de 2013

Profecia


Abriu-se a porta e o tempo saiu vestido de branco -
- todas as noites uma estrela caminhará,
alguma há-de acertar com a rota já esquecida.
 
Mas os homens, se isto virem, julgarão que o mundo acaba.
 



Jorge de Sena

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

As mãos


Côncavas de ter
Longas de desejo
Frescas de abandono
Consumidas de espanto
Inquietas de tocar e não prender.




Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Noite dentro


Tão impossível a noite que não vinha contigo
nem chegava por ti. Tão impossível,
e tão lentos
os seus dedos de faca arranhando as minhas costas,
destroçando as minhas costas,
que não soube mais noite para além da luz dos teus dedos.
 



Ángel Mendoza

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

O corpo atento


A tarde avança em lençóis de fumo
  e tu não bates à minha porta.
Enrolo um cigarro de lume para acabar com a dor.
Tenho os ouvidos lá fora e o corpo atento
O meu coração é um bandido sem navio nem marés
Perdidos os mastros não sabe gritar.
Por isso sou apenas um retrato
Sem perfil nem disfarce.
A tarde é uma égua e a tua demora uma navalha.




Isabel Mendes Ferreira

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Como quem se despe


Risquei o último fósforo
e estou agora vazia,
não esperando sequer
o deserto. Posso de novo
sublinhar os livros
sem pensar noutros olhos,
numa vontade que não coincida;
como quem se despe
de portas abertas, luzes acesas,
buracos na roupa,
indiferente ao desejo
de vizinhos e espelhos.
 
Sou finalmente o único fantasma
da minha vida inteira.




Inês Dias

terça-feira, 12 de novembro de 2013

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

E outros erros


era uma noite branca com um rio
dentro, ali afundámos os dias
contados, as roseiras do jardim,
duas ou três horas felizes
e outros erros.
 
trocávamos tudo por um sopro de outono.




Renata Correia Botelho

domingo, 10 de novembro de 2013

Dia par

 
 
 
 
 

Nada a fazer


Envelheces tanto de cada vez que o dia termina
e olhas para trás. Tens medo do começo do fim,
das tardes de domingo; um dia, distraído, tens medo
do sexo, da amabilidade e da noite, e dos rostos
que foram belos – e não são mais. Envelheces muito
quando o mundo contraria as pequenas coisas,
sentes esse cansaço, nada a fazer.




Francisco José Viegas

sábado, 9 de novembro de 2013

Silêncio:


Encontrámos na encosta
Flores ainda sem nome





José Tolentino Mendonça  (A papoila e o monge)

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

E não ter nada


Passámos tanta vez naquela estrada
talvez a curva onde se ilude o mundo.
O amor é ser-se dono e não ter nada.
  Mas pede tudo.
 



Natalia Correia

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Frio


que helada esta casa !
sera que esta cerca el rio
o es que estamos en invierno
y estan llegando,
estan llegando...
los frios.




Patxi Andión

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Uma palavra


Havia
uma palavra
no escuro.
Minúscula. Ignorada.
Martelava no escuro.
Martelava
no chão da água.
Do fundo do tempo,
martelava.
Contra o muro.
Uma palavra.
No escuro.
Que me chamava.




Eugénio de Andrade

domingo, 3 de novembro de 2013

Sabes ?


adormecemos juntos acordamos
apartados
disputamos os lençóis como quem
puxa a razão para si
a quantos beijos estamos hoje de distância?




João Luís Barreto Guimarães

sábado, 2 de novembro de 2013

Demoraste tanto a voltar dessa viagem

 

mais nada se move em cima do papel
nenhum olho de tinta iridescente pressagia
o destino deste corpo
os dedos cintilam no húmus da terra
e eu
indiferente à sonolência da língua
ouço o eco do amor há muito soterrado
encosto a cabeça na luz e tudo esqueço
no interior desta ânfora alucinada
desço com a lentidão ruiva das feras
ao nervo onde a boca procura o sul
e os lugares dantes povoados
ah meu amigo demoraste tanto a voltar dessa viagem
o mar subiu ao degrau das manhãs idosas
inundou o corpo quebrado pela serena desilusão
assim me habituei a morrer sem ti
com uma esferográfica cravada no coração.




Al Berto

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O primeiro frio


é este o sofrimento do Outono
o primeiro frio e a flor adiada
para um tempo que já não há-de
ser meu




Rosa Alice Branco

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Noites longas

 

diz-me um segredo
mantém-me acordada
enquanto esta noite não chega ao fim




Dulce Maria Cardoso

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Morada


Tenho as coisas escritas
no peito, o teu nome. Nada tem que ver
com o coração, muito menos com sentimentos.
O teu nome está-me escrito nos sinais, sobre a pele.
A tinta, desenhos de círculos castanhos
assinalando lugares.
O meu mapa genético tem uma única localidade.
Dizer o nome dela é chamar-te.
Chamar-te é encontrar a minha morada.




Inês Fonseca Santos

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Desculpas

 

Eu conheço uma música frágil como a chuva ou as lágrimas evitadas. É uma música que ouço muitas vezes enquanto escrevo ou leio, ou que ecoa dentro de mim enquanto leio o que escrevi. Cada vez que a ouço, que percorro o teclado infindável do piano onde me refugio, esqueço-me do que escrevi e leio as lágrimas que não chorei sulcadas no meu rosto, à espera que chovesse. Que me lembre, é uma música onde tu não estás. Uma música que se calhar não existe, ou não existe assim, e não passa de uma desajeitada desculpa para finalmente poder chorar.




Jorge Fallorca

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Ligeiras confidências


o dia corre de poente para nascente, a chuva
é um lençol tenso sobre os velhos que separam
as lembranças, com palavras que não chegam
a dizer: esquecem os subterfúgios do tempo
e avançam cambaleantes pelas grandes fissuras
entregues ao despovoamento alucinante
no interior dos carros, os crimes
são ligeiras confidências




Rui Nunes

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Iminência


E o cais cinzento e as casas vermelhas
E não é ainda a solidão.
E os olhos veem um quadrado negro com um círculo de música lilás no seu centro
E o jardim das delícias apenas existe fora dos jardins
E a solidão é não poder dizê-la.
E o cais cinzento e as casas vermelhas.




  Alejandra Pizarnik