sexta-feira, 30 de setembro de 2016




Em silêncio te vestiste 
em silêncio uma vez mais
 ternamente mentiste 
Em silêncio fechaste o portão 

 Em silêncio ajeitaste o coração 






 Ulla Hahn

quinta-feira, 29 de setembro de 2016




Era um pássaro alto como um mapa
 e que devorava o azul 
 como nós devoramos o nosso amor. 

Era a sombra de uma mão sozinha
 num espaço impossivelmente vasto 
 perdido na sua própria extensão. 

Era a chegada de uma muito longa viagem 
 diante de uma porta de sal
 dentro de um pequeno diamante. 

Era um arranha-céus
 regressado do fundo do mar. 

Era um mar em forma de serpente 
 dentro da sombra de um lírio. 

Era a areia e o vento 
 como escravos
 atados por dentro ao azul do luar. 







 Artur do Cruzeiro Seixas

quarta-feira, 28 de setembro de 2016




Eu preciso tanto de te tocar. 
Tocar-te com dedos mesmo e não só
 com palavras 






 Helder Moura Pereira

terça-feira, 27 de setembro de 2016

segunda-feira, 26 de setembro de 2016




Morre-se de tanta coisa 
Quanto a mim morro-me de ausência
 morro-me com todo este céu a cair-me por entre os dedos; 
pedacinhos de memória pendurados 
morro-me também 
da melancolia 
quando tu, sem eu saber porquê, 
nem te aproximas nem acenas
 ah sim, também se morre de silêncio 






 Victor Oliveira Mateus
 (Foto de Ezgi Polat)

sábado, 24 de setembro de 2016




- gritei?
 - não te ouviste?
 - ouvi alguém gritar. 
- eras tu. 






 Rui Nunes
 (Foto de Natalia Drepina)

sexta-feira, 23 de setembro de 2016




o silêncio é o único cúmplice das palavras que mentem
 eu sei 
comemos a lucidez do asfalto
 mudámos de morada sempre que foi preciso recomeçar 
vivíamos como nómadas sem nunca nos habituarmos à cidade 
mas nada disto chegou para nos entendermos 
o tempo transformou-se num relógio de argila
 tudo esqueci dessas derivas 






 Al Berto

quinta-feira, 22 de setembro de 2016




Uma vez um homem encontrou duas folhas e entrou em casa
 segurando-as com os braços esticados dizendo aos pais que era uma
 árvore. 
 Ao que eles disseram então vai para o pátio e não cresças na sala 
pois as tuas raízes podem estragar a carpete. 
 Ele disse eu estava a brincar não sou uma árvore e deixou cair as 
folhas. 
 Mas os pais disseram olha é outono 






 Russell Edson

terça-feira, 20 de setembro de 2016




Recomecemos então, as mãos 
palma com palma. 
Diz, não digas, a palavra. 
As palavras terão sentido ainda? 
Haverá outro verão, outro mar
 para as palavras? 
Vão de vaga em vaga, 
de vaga em vaga vão apagadas. 
Seremos nós, tu e eu, as palavras? 
Onde nos levam, neste crepúsculo, 
assim palma a palma, 
de mãos dadas? 







 Eugénio de Andrade

segunda-feira, 19 de setembro de 2016




Tenho uma dor de concha extraviada.
 Uma dor de pedaços que não voltam. 
Eu sou muitas pessoas destroçadas. 







 Manoel de Barros

domingo, 18 de setembro de 2016




Estamos nus como os gregos na Acrópole
 e o sol que nos mira também os fitou. 
Mas fazemos amor de relógio no pulso. 






 Rui Knopfli
 (Foto de Laura Makabresku)

quinta-feira, 15 de setembro de 2016




Não te dei ouvidos 
Dei-te o corpo todo 
Mas só porque eras
 o intervalo entre
 o caos e o comboio 






 Helder Moura Pereira

quarta-feira, 14 de setembro de 2016




dentro das noites a pensar em ti 
 sabendo: não te vejo nunca mais 






 Ana Luisa Amaral

terça-feira, 13 de setembro de 2016




tudo o que eu gostaria de ter aqui está tão longe, não sei aonde, está longe o amor que às vezes esperava. E não virá
Consolo a minha saudade com fotografias tuas. Mas sei que há muito se apagaram os sorrisos do teu rosto. 
Envelhecemos separados, tenho pena, agora já é tarde, estou cansado demais para as alegrias dum reencontro. 
Não acredito na reconciliação ainda menos no sorriso que fizeste para as fotografias






 Al Berto (Diários)

segunda-feira, 12 de setembro de 2016




Rega-me - peço-te. 
Carinhosamente. 
Todos os dias. 
Até me deixares morrer.






 Fátima Abreu Ferreira
 (Foto de Anna O)



(obrigada á Fátima pela gentileza, e á Sónia Silva pela inspiração)

domingo, 11 de setembro de 2016




Disseste que se via nos olhos. Que nem um sorriso conseguia esconder. Que me vias, assim. Perdoa-me também; porque eu reparei nos teus olhos. E não esqueço gestos. Por exemplo: quando levaste a mão ao peito como se não conseguisses respirar. Ouvias esta música. Já não te recordas, eu sei. Disfarçaste. Ainda hoje me espanto com o que aguento lembrar. Por exemplo: quando chorei abraçada a ti. Foi assim que nunca mais abandonei o teu cheiro. Mas tu voltaste a dizer que se via nos olhos e eu – o tanto que tentei – só queria enganar-te. Cedi. Não sei bem o que viste. Sei que te arrastei no meu silêncio. Que me acalmou a tua respiração acelerada. Ou a tua mão no meu cabelo. Beijaste-me em prenúncio de tragédia. Não interessa agora. O que aconteceu? A memória será o meu calvário. E isso – tu sempre soubeste – vê-se nos olhos. Tomara eu sabê-lo tão bem: talvez ainda tivesse tempo de fugir. 






 Rafael Alberti

quarta-feira, 7 de setembro de 2016




Vasculhei as tuas coisas como um detective. 
Tentei descobrir porque deixaste de gostar de mim. 
Não conseguia reduzir a um só motivo

Uma das minhas gavetas está cheia de tralha tua. 
Eu queria arranjar um apartamento maior, 
e ter um quarto só para ti.
 Iria tornar-se numa espécie de museu. 
A tua ausência iria estar em exposição. 

A tua fotografia está no armário. 
Está ao lado dos livros que li, 
e que não tenciono reler. 






 Hal Sirowitz
 (Trad Maria Sousa)

terça-feira, 6 de setembro de 2016




Num muro branco desenhas as alegorias do repouso, e é sempre uma rainha louca jazendo sob a lua sobre a triste erva do velho jardim. 
Mas não fales dos jardins, não fales da lua, não fales da rosa, não fales do mar. Fala do que sabes. 
Fala do que vibra em tua medula e produz luzes e sombras no teu olhar, fala da dor incessante dos teus ossos, 
fala da vertigem, fala da tua respiração, da tua desolação, da tua traição. 
É tão obscuro, tão em silêncio o processo a que me obrigo.
 Oh! Fala do silêncio! 






Alejandra Pizarnik
 (Foto de Ezgi Polat)

segunda-feira, 5 de setembro de 2016




A perda do amor é sempre dano, 
sente-se que alguma coisa foi
 pelo cano abaixo, mas o amor tem
 a coisa de poder voltar. Às vezes 
não volta ou então é apenas
 fingimento, não passa de uma
 cadeira onde nos podemos sentar






 Helder Moura Pereira
(Foto de Ezgi Polat)

sábado, 3 de setembro de 2016

cai sete vezes




minha primeira queda
 não abriu o para-quedas

daí passei feito uma pedra
 pra minha segunda queda 

da segunda à terceira queda
 foi um pulo que é uma seda 

nisso uma quinta queda
 pega a quarta e arremeda

na sexta continuei caindo 
agora com licença
 mais um abismo vem vindo 







 Paulo Leminski

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Contra argumento




a casa é um nojo sem ti o lava-loiça o quarto 
de banho os lençóis sujos a comida a apodrecer
 no frigorifico tu melhor que ninguém sabes que difícil

 é conviver com um tipo como eu incapaz de enfrentar 
assuntos tais como lavar a roupa o cesto 
das compras a escolha de detergente ou a solidão 

 a minha vida é um nojo sem ti. 



(Para a Vanessa)



 Pablo García Casado