sexta-feira, 30 de maio de 2014

Uma ferida


Tenho uma flor à tua espera, uma ferida
 nos sulcos do meu ventre. Vem regá-la, 
colhê-la, faz com ela o arranjo da refeição
 que agora termina e de novo começa. 





 Henrique Manuel Bento Fialho
 (Foto de Laura Makabresku)

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Por que outra noite trocaram o meu escuro



Deixai-me o escuro, o meu. 
Porque ao lado da minha, 
a vossa ausência, essa que em mim plantastes,
 nada é. 
Tomáreis vós saber o que é ausência 
Ausência eu: demorada nestas linhas.
 Dizer com quanto escuro
 a noite se desfaz
 e se constrói — 






 Ana Luísa Amaral ( Escuro )

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Esta paixão pelo silêncio







Morrer de vez em quando


Já me matei faz muito tempo
 me matei quando o tempo era escasso
 e o que havia entre o tempo e o espaço
 era o de sempre
 nunca mesmo o sempre passo
 morrer faz bem à vista e ao baço
 melhora o ritmo do pulso
 e clareia a alma

 morrer de vez em quando
 é a única coisa que me acalma. 





 Paulo Leminski
 (Foto de Laura Makabresku)

terça-feira, 27 de maio de 2014

Dias assim


chegas a casa com as mãos
 cheias de sacos e vincadas
 pelo esforço. o silêncio é escuro 
antes de acenderes a luz; depois
 o silêncio é o mesmo, mas ilumina
 a solidão nos objectos da casa. largas tudo
 logo à entrada. acendes a luz fria da casa
 de banho. pegas no elástico, agarras os
 cabelos, escuros. e lavas o rosto. ele 
vai ficando na água. até que o faças 
escorrer pelo ralo: sem nenhum som. 






 Bruno Béu
 (Foto de Dara Scully)

domingo, 25 de maio de 2014

Confesso



(...) 
 Cortei-me e não há
 verso capaz
 de estancar o sangue 





 Manuel A. Domingos
 (Foto de Laura Makabresku)

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Geografia íntima


pela noite, cansad(a), as mãos magoadas 
das tarefas, o texto nem por isso mais aviventado
 a casa nem por sombras habitável, deita-se

 sempre a tantos quilómetros do amor 






Miguel Manso

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Lista de espera







Da oferta e da procura


Com tanta angústia em stock
 não sei o que fazer
 acumulada é tanta
 que o coração assim
 não cabe mais 
Vendo-a barata, avulso.
 à vontade de bolso ou contentor, 
na quantidade exacta 
que o desejo traz 
Ou troco um quilo dela 
por grama de suor
 (ou meio grama de paz) 





 Ana Luísa Amaral

terça-feira, 20 de maio de 2014

Guarda-me


Meu infatigável anjo, 
da guarda de  meu  corpo





Maria Teresa Horta
 (Foto de Laura Makabresku)

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Promete-me


Quando me cansar de voar ou a ferida estiver finalmente visível, promete-me que a faca será afiada e silenciosa. 
Que eu não a veja chegar, como se não tivesse passado uma vida a pressenti-la nas dobras do lençol, mortalha de tantas noites.
 E antes, dá-me de beber entre as mãos, conta-me de céus azuis, sem garras e sem abismos.
 Espera que o meu coração de novo pequenino se aninhe no calor das tuas veias
 e se torne apenas a memória de um sobressalto contra a tua pele.





 Inês Dias
 (Foto de Laura Makabresku)

sábado, 17 de maio de 2014

Nos teus dedos nasceram horizontes



e aves verdes vieram desvairadas
 beber neles julgando serem fontes





 Eugénio de Andrade
(Foto de Laura Makabresku)

quinta-feira, 15 de maio de 2014

O vento


O vento não varria as folhas
 O vento não varria os frutos 
O vento não varrias as flores
 E a minha vida não ficava
 Cada vez mais cheia 
De frutos, de flores de folhas 
O vento não varria as luzes 
O vento não varria as músicas 
O vento não varria os aromas 
E a minha vida não ficava
Cada vez mais cheia 
De aromas, de estrelas, de cânticos 
O vento não varria os sonhos
 E não varria as amizades 
O vento não varrias as mulheres
 E a minha vida não ficava 
Cada vez mais cheia
 De afectos e de mulheres 
O vento não varria os meses
 E não varria os teus sorrisos
 O vento não varria tudo! 
E a minha vida não ficava 
Cada vez mais cheia 
De tudo. 





Mário Cesariny

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Caminhos do espelho



E sobretudo olhar com inocência. Como se nada se passasse, o que é certo. 





 Alejandra Pizarnik
 (Foto de Katia Chausheva)

terça-feira, 13 de maio de 2014

Falo de um tempo de espera



(...) 
 o tempo em que vão cair as pétalas a
 todas as palavras a
 todas as palavras
 a todas as 
palavras 





 Miguel Manso
(Foto de Katia Chausheva)

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Private post



Sempre que o vento te ralhe 
E a chuva de maio te molhe 
Sempre que o teu barco encalhe 
E a vida passe e não te olhe 


Podes vir chorar no meu peito
Pois sabes sempre onde estou





domingo, 11 de maio de 2014

Como um mapa


Desdobrei a minha orfandade
 sobre a mesa, como um mapa. 
Desenhei o meu itinerário
 até ao meu lugar ao vento. 
Os que chegam não me encontram. 
Os que espero não existem. 





 Alejandra Pizarnik
(Foto de Laura Makabresku)

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Silêncio



matamos sempre o que amamos, matamos sempre alguém durante a nossa vida, 
matam-nos sempre também, um pouco, 

 (ninguém devolve a dor à minha fala, porque não digo que me dói) 





 Rui Nunes
(Foto de Laura Makabresku)

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Love letter







Dentro de mim faz sul



eu sou a pele da flor. a maciez, o odor, a viscosidade
 morta, num assunto gasto. ando à berma da pele, escorrego
 na voz grave de uma cantoria, o que seria,
 o que seria o som mouco que subsistia lá atrás enquanto se gritava, 
se sonhava sou o fim da página, não o risco cuidado, mas a parte
 rasgada; o tempo carcomendo-me enquanto pode, 
 enquanto aqui espero por tautológicas mordiscadelas. 
gosto de olhar mesas: as que têm envelopes por sobre
 elas selos, pêlos, tudo que lembre o que foi viajar. 
 lembro o mar, o mar: 
 eu sou essa onda que retorna ao mar. 





 Ondjaki

terça-feira, 6 de maio de 2014

Doze moradas de silêncio



nada... incessantemente nada 
nem mesmo a infelicidade
 desenhar um quarto à medida da ausência
 de nossos corpos apagar as luzes e a paisagem 
fechar as janelas as portas as frestas
 abrir as mãos os olhos e talvez o gás
 esperar... esperar 




 Al Berto

segunda-feira, 5 de maio de 2014

As coisas nas pontas dos dedos


Cortam os vasos, as veias. Minúsculas, 
as coisas nas pontas dos dedos 
são feitas de vidro partido.
 Invisíveis aos olhos, levam com elas
 as nossas impressões 
digitais




 Inês Fonseca Santos
(Foto de Katia Chausheva)

domingo, 4 de maio de 2014

As mães



No sorriso louco das mães batem as leves gotas de chuva. Nas amadas caras loucas batem e batem os dedos amarelos das candeias. Que balouçam. Que são puras. Gotas e candeias puras. E as mães aproximam-se soprando os dedos frios. Seu corpo move-se pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões e órgãos mergulhados, e as calmas mães intrínsecas sentam-se nas cabeças filiais. Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado, vendo tudo, e queimando as imagens, alimentando as imagens, enquanto o amor é cada vez mais forte. E bate-lhes nas caras, o amor leve. O amor feroz. E as mães são cada vez mais belas. Pensam os filhos que elas levitam. Flores violentas batem nas suas pálpebras. Elas respiram ao alto e em baixo. São silenciosas. E a sua cara está no meio das gotas particulares da chuva, em volta das candeias. No contínuo escorrer dos filhos. As mães são as mais altas coisas que os filhos criam, porque se colocam na combustão dos filhos, porque os filhos estão como invasores dentes-de-leão no terreno das mães. E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos, e atiram-se, através deles, como jactos para fora da terra. E os filhos mergulham em escafandros no interior de muitas águas, e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos e na agudeza de toda a sua vida. E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa, e através dele a mãe mexe aqui e ali, nas chávenas e nos garfos. E através da mãe o filho pensa que nenhuma morte é possível e as águas estão ligadas entre si por meio da mão dele que toca a cara louca da mãe que toca a mão pressentida do filho. E por dentro do amor, até somente ser possível amar tudo, e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor. 




 Herberto Helder,

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Pela última vez



Nunca se sabe
 quando estamos num lugar
 pela última vez. Numa casa
 que vai ser demolida, numa sala
 provisória que vai encerrar, num velho
 café que mudará de ramo, como
 página virada jamais reaberta, como 
canção demasiado gasta, como
 abraço tornado irrepetível, numa
 porta a que não voltaremos.




 Inês Lourenço

quinta-feira, 1 de maio de 2014