sábado, 30 de abril de 2016

sexta-feira, 29 de abril de 2016




Sobrou desse nosso desencontro 
Um conto de amor
Sem ponto final 
Retrato sem cor
 Jogado aos meus pés 
E saudades fúteis 
Saudades frágeis 






Chico Buarque
 (Foto de Ezgi Polat)

quinta-feira, 28 de abril de 2016




Regresso devagar ao teu 
 sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que 
 não é nada comigo. Distraído percorro 
 o caminho familiar da saudade, 
 pequeninas coisas me prendem, 
 uma tarde num café, um livro. Devagar
 te amo e às vezes depressa,
 meu amor, e às vezes faço coisas que não devo, 
 regresso devagar a tua casa, 
 compro um livro, entro no
 amor como em casa. 






 Manuel António Pina

quarta-feira, 27 de abril de 2016




Que branca mão devagar 
 quebra os ramos do silêncio? 






 Eugénio de Andrade

terça-feira, 26 de abril de 2016




uma sombra sem peso desliza por uma parede,
 nada a pode parar, como ninguém pode 
impedir um nome ou um canto ou uma ausência
 ou um contorno ou o teu rosto de existir 






 Per Aage Brandt
 (Foto de Katia Chausheva)

domingo, 24 de abril de 2016

sábado, 23 de abril de 2016




Se calhar toda a arte devia tender para o silêncio. 
 Quanto mais silêncio houver num livro, melhor ele é






 António Lobo Antunes
(Foto de Ezgi Polat)

quinta-feira, 21 de abril de 2016




Tu já me arrumaste no armário dos restos
 eu já te guardei na gaveta dos corpos perdidos
 e das nossas memórias começamos a varrer 
as pequenas gotas de felicidade
 que já fomos. 
Mas no tempo subjectivo
 tu és ainda o meu relógio de vento 
a minha máquina aceleradora de sangue 
e por quanto tempo ainda 
as minhas mãos serão para ti
 o nocturno passeio do gato no telhado? 






 Isabel Meyrelles

terça-feira, 19 de abril de 2016




embora 
 saiba que foi o teu silêncio que me deixou, tenho
 pavor de me esquecer da tua voz; e, quando tento 
recordar um instante feito só de palavras ditas
 ao ouvido, já não encontro nada - nada de nada;
 e é como se tivesses morrido dentro do meu corpo. 






 Maria do Rosário Pedreira

segunda-feira, 18 de abril de 2016




Alguma coisa onde tu parada
 fosses depois das lágrimas uma ilha, 
e eu chegasse para dizer-te adeus
 de repente na curva duma estrada

 alguma coisa onde a tua mão 
escrevesse cartas para chover
 e eu partisse a fumar
 e o fumo fosse para se ler

 alguma coisa onde tu ao norte
 beijasses nos olhos os navios 
e eu rasgasse o teu retrato 
para vê-lo passar na direcção dos rios

 alguma coisa onde tu corresses
 numa rua com portas para o mar
 e eu morresse
 para ouvir-te sonhar 








 António José Forte

domingo, 17 de abril de 2016

running





( dez km e um campo de papoilas 
o cheiro das manhãs depois da chuva )






sábado, 16 de abril de 2016




Ah 
não me venham dizer 
oh
 não quero saber 
ah
 quem me dera esquecer 

 Só o incerto é que o poema é aberto 
e a Palavra flui inesgotável! 






 Mário Cesariny

terça-feira, 12 de abril de 2016

segunda-feira, 11 de abril de 2016





Tenho sempre a suspeita que me abandonaste nesse dia... eu sei, raramente podemos ser o que queremos ser






Al Berto
(Foto de Ezgi Polat)

Lorca










domingo, 10 de abril de 2016




Abril é o mais cruel dos meses






 T.S. Eliot
 (Foto de Anna O)

sábado, 9 de abril de 2016




Hoje só fotografei árvores, 
Dez, cem, mil. 
Vou revelá-las à noite. 
Quando a alma for câmara escura. 
Depois vou classificá-las: 
Segundo as folhas, os anéis dos troncos, 
Segundo as suas sombras. 
Ah, como as árvores 
Entram facilmente umas nas outras! 
Vejam, agora só me resta uma. 
É esta que vou fotografar outra vez 
E vou observar com assombro 
Que se parece comigo.
 Ontem só fotografei pedras. 
E a pedra afinal 
Parecia-se comigo. 
Anteontem — cadeiras — 
E a que resultou 
Parecia-se comigo. 

Todas as coisas se parecem terrivelmente 
Comigo 

 Tenho medo. 






 Marin Sorescu

sexta-feira, 8 de abril de 2016

O prometido não foi devido





"Quero já os almanaques 
Do fantasma e do patinhas 
Os falcões e os mandrakes 
Tão cedo não terás novas minhas"







quinta-feira, 7 de abril de 2016




Ver-nos-emos um dia
 náufragos ou cegos
 como animais da sombra. 
Está escrito 






 Ana Marques Gastão

quarta-feira, 6 de abril de 2016




eu sou feliz na alegria não sentimental que se manifesta; 
o que me fraccionava, partiu: 
o que tende para um limite finito, desapareceu; 
a mata espessa e o grande bosque florescem; 
dobro-me conforme o número, género, grau, modo, tempo,
 e pessoa que sou vossa. 
E assino. 






 Maria Gabriela Llansol
 (Foto de Anna O)

terça-feira, 5 de abril de 2016




Quando acordaram de manhã, na mesma cama, ela disse-lhe que queria ter um passado com ele. Não era um futuro, que é uma coisa incerta, mas um passado, que é isso que têm dois velhos depois de passarem uma vida juntos. Quando disse que queria ter um passado com alguém, queria dizer tudo. 
Não desejava uma incerteza, mas a História, a verdade. 






 Afonso Cruz

segunda-feira, 4 de abril de 2016

E pudesse eu pagar de outra forma!













Tu chegas e a minha pele chama-te 
 sete nomes em surdina. É a luz da tarde que faz o fulgor 
 dos fenos e aquece a roupa que abandonou o corpo 
sem perguntas. As mãos podem então dar-se
 todos os recados. E amanhã ninguém sabe. Fica 
 apenas um punhado de espigas quebradas sobre a planície 
 lenta; amarela, digo: as papoilas, entretanto, voaram. 






 Maria do Rosário Pedreira
 (Foto de Anna O)

domingo, 3 de abril de 2016



Sónia Silva 



Busquei o azul, perdi a juventude. 
Os corpos, como ondas, rompiam-se 
em areias desertas. Houve amor
 no recanto florido de um jardim
 fechado. E quis achar palavras 
que alguém pudesse amar, e elas valeram-me. 
Estou a chegar ao fim. Cega meus olhos
 um desolado azul iluminado. 






 Francisco Brines

sábado, 2 de abril de 2016