terça-feira, 31 de março de 2015




A magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
 E eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão





 Daniel Faria

segunda-feira, 30 de março de 2015




As janelas
 por onde entram as silvas,
 a púrpura pisada, 
o aroma das tílias,
 a luz em declínio,
 fazem deste abandono
 uma beleza devastadora
 e sem contorno.





 Eugénio de Andrade
 (Foto de Nishe)

sábado, 28 de março de 2015




E uma noite a vida 
começa a doer muito 
e os espelhos donde as almas partiram 
agarram-nos pelos ombros e murmuram 
como são terríveis os olhos do amor
 quando acordam vazios 





 Alice Vieira

sexta-feira, 27 de março de 2015

quarta-feira, 25 de março de 2015




Pedem tanto a quem ama: 
pedem o amor.
 Ainda pedem a solidão e a loucura





 Herberto Helder
 (Foto de Natalia Drepina)

segunda-feira, 23 de março de 2015




Vesti-me de sombra e senti o silêncio pousar-me no coração. 





 Teixeira de Pascoaes
 (Foto de Nishe)

domingo, 22 de março de 2015




E agora eu sou os meus sapatos. Tenho um par de sapatos 
 dentro de mim. Um dois, dois um... sapatos dentro de mim. 
 Era uma vez eu dentro de uns sapatos, fora e dentro de mim. 
 Era uma vez duas de mim – uma sentindo este ruído na pele 
 como peixe monstruoso, a outra, sentada, observando os sapatos, 
 usurpando aconchego à cadeira. Distraem, prudentes, os sapatos, 
 dançam em meus pés de sabão, evadindo-se de um funeral descalço;
 brincam, perversos, em voo contrário à amputação; movem-se
 sedutores, como gatos invisíveis, furtando-me a audição. 
 Oiço-me no vulto das frases, surda do outro. 

 Era uma vez eu dentro de mim. Era uma vez os meus sapatos. 




 Ana Marques Gastão
 (Pina Bausch fotografada por Ulli Weiss)

quinta-feira, 19 de março de 2015

quarta-feira, 18 de março de 2015




Afundada no seu apertado vestido de noite 
dorme entre cristais. 
Os olhos fechados
 a boca fechada 
o sexo fechado. 
Uma caixa de cristal 
dentro de outra caixa de cristal. 





 Miriam Reyes
 (Foto de Natalia Drepina)

terça-feira, 17 de março de 2015




É uma e trinta 
meio corpo debruçado
 sobre a vida inteira. Despercebida
 uma estranha câimbra que nasce
 nas pernas.Brilha o que 
resta da lua. Os meus vazios
 procuram ritos, as minhas solidões
 estão sobre os sapatos 
que descalcei
 porque me cercava a sua pressão.
 Estou inteira como a vida que olho
 como a vida que me deixa
 me deixa meio corpo debruçado
 sobre ela. 





 Concha Garcia ( Trad por Maria Sousa)
(Foto de Nishe)

segunda-feira, 16 de março de 2015




Sou rainha de todos os meus pecados esquecidos. 
 Em tempos fui bonita. 
 Agora sou eu própria.





 Anne Sexton
 (Foto de Elena Getzieh)

sexta-feira, 13 de março de 2015






La espera del amor, el amor a la espera.
 Cuando venga com sus ojos de niebla. 
La noche me transforma em la esperadora del amor





 Alejandra Pizarnik  (Diários)
Foto de Sónia Silva ( http://ocorpoestremecedesaudade.blogspot.pt/)


quinta-feira, 12 de março de 2015

quarta-feira, 11 de março de 2015




Nunca mais acabas de partir
 é um horror a tua viagem 
para longe de mim, o teu 
regresso a uma vida onde
 não tenho lugar, o teu
 regresso a um lugar onde
 não faço sentido, a tua 
infinita partida, os teus 
despojos por todo o lado, 
é um horror tu dentro de
 todos os poemas. 





 Sarah Adamopoulos
  (Foto de Natalia Drepina)

terça-feira, 10 de março de 2015




Dissolver 
lentamente na boca 

 Saborear 
como um aperitivo

 O pânico 





 Rui Caeiro

segunda-feira, 9 de março de 2015




Respeite o silêncio a omissão, a ausência. 
É meu movimento de deserção. 
Abandonei o posto, rompi a corda, desacreditei de tudo. 
Cansei de esperar que finalmente um dia, minha fotografia 
fizesse jus ao seu criado-mudo. 





 Flora Figueiredo
 (Foto de Josephine Cardin)

domingo, 8 de março de 2015




As mulheres loucas arrumam os quartos, fazem
 as camas desfeitas, empilham camisas e calças, 
abotoam os cintos do infinito, prendem os laços 
da sombra. Com os seus olhos cegos, enfiam
 agulhas no buraco da vida, cosem as feridas
 do amor que não tiveram, cantam devagar
 a canção da idade fria. Dispo essas mulheres
 no meu poema; espalho as suas roupas pelas cadeiras
 do quarto; abro a cama onde as deito; rasgo 
os pontos que acabaram de coser. O seu sexo - 
seco pelos ventos de uma inquietação nocturna
 - humedece-me os dedos. Desfolho os dias de março
 enquanto desfloro os seus lábios. Por vezes,
 as mulheres loucas abrem a porta da varanda, 
respiram o perfume das trepadeiras brancas
 da primavera, desmaiam com o sol. 





 Nuno Júdice
 (Foto de Natalia Drepina)

sábado, 7 de março de 2015




Mais do que tudo, odeio 
Tantas noites em flor da Primavera, 
Transbordantes de apelos e de espera, 
Mas donde nunca nada veio. 





 Sophia de Mello Breyner Andresen
 (Foto de Nishe)

sexta-feira, 6 de março de 2015




Atei os sentidos à escuridão
 parado diante da tua porta
 já não pergunto





 José Tolentino Mendonça
(Foto de Katia Chausheva)

quinta-feira, 5 de março de 2015










Vou pôr um anúncio obsceno no diário
 pedindo carne fresca pouco atlética 
e nobres sentimentos de paixão. 
Desejo um ser, como dizer, humano 
Que por acaso me descubra a boca
 e tenha como eu fendidos cascos 
bífida língua azul e insolentes
 maneiras de cantar dentro de água. 
Vou querer que me ame e abandone
 com igual e serena concisão 
e faça do encontro relatório 
ou poema que conste do sumário 
nas escolas ali além das pontes
 E espero ao telefone que me digam 
se sou feliz, real, ou simplesmente 
uma espuma de cinza em muitas mãos. 





 António Franco Alexandre
 (Foto de Nishe)

quarta-feira, 4 de março de 2015




Há pessoas que demoram tanto tempo a deixar-nos. 





António Lobo Antunes
 ( Foto de Hiroshima Mon Amour )



Não espero nada. Mas do nada quero tudo. A absoluta negação. A sala do fundo, não o pórtico. 
 Um negrume tão escuro que o imagino estalando em centelhas de uma luz desconhecida. 
 Sangrando luz. Tormento sem desespero. Aliviado. Etéreo e eterno.
 Dôr no fundo dos olhos bem abertos. 





 Miguel Martins

terça-feira, 3 de março de 2015




A minha casa é este corpo que parece uma mulher, 
não preciso de mais paredes e dentro tenho
 muito espaço 
este deserto negro que tanto te assusta 




 Miriam Reyes
 (Foto de Laura Makabresku)

segunda-feira, 2 de março de 2015




Venham ver, venham, 
a minha oculta ferida. 
Tem rebordo roxo 
e paixão ao meio.
 É bonita e quero-lhe muito.
 É flor de passiflora à botoeira
 da pele que subpulsa, 
que repulsa, 
meus audiovisuais que aguentam tudo:
 minha náusea, meu coração-culpa. 
 Brinco enquanto finjo um outro assunto. 
Rif-raf é um brinquedo de criança 
ou nada quer dizer
 senão imagem onomatopaica.
 Diagrama, indica infecção 
palustre de água-viva e memória 
tão secreta que não mata. 
 Vê-se e não se vê 
a minha oculta ferida. 
Mas tem cruzes e espinhos. 
No centro uma gota brilha 
rocio
 ou som murmurado
 que se transmite sem pedir palavra. 
 A minha ferida sangra 
 como que entornada. 
Venham ver, entrem,
 que não se paga nada. 





 Ruy Cinatti

domingo, 1 de março de 2015

Ofício




Armazenar sofrimento. 

 Distribuí-lo depois
 límpido. 





 António Osório
 (Foto de Natalia Drepina)