domingo, 31 de julho de 2011

Onde estamos?




Esta noite chove. Chove em volta da casa e
sobre o mar também. O filme vai ficar assim,
como está. Não tenho mais imagens para lhe dar.
Já não sei onde estamos, em que fim de que amor,
em que recomeço de que outro amor, em que
história nos perdemos. Sei apenas quanto ao filme.
Apenas quanto ao filme, sei, sei que nenhuma
imagem, nem uma só imagem mais poderia
prolongá-lo.

Marguerite Duras


sexta-feira, 29 de julho de 2011

Hoje





Hoje és todas as coisas que deixaste para trás

– uma casa abandonada de janelas estripadas –

és todas as coisas que me prometeste e esqueceste.

Alice Turvo

quinta-feira, 28 de julho de 2011

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Que há-de ser de nós


...

Que há-de ser do mais longo beijo
que nos fez trocar de morada
dissipar-se-á como tudo em nada?


Sergio Godinho
...

Que há-de ser da mais longa carta
que se abriu, peito alvoroçado
devolver-se-á: «endereço errado?»


Sergio Godinho

domingo, 24 de julho de 2011

De todas as maneiras





Com todas as palavras feitas 

pra sangrar já nos cortamos




Chico Buarque

Entre os cardos





não procuro um amor entre os cardos, se é entre os cardos que me vês, procura
pensar que um amor não se perde por ali nem por ali se deve encontrar. se estou
entre os cardos, meu amor, é para te esquecer e se me vires, pensa que é por ti, absolutamente por ti
que procuro apenas dores, apenas fardos, para lentamente matar o meu coração. e
se me vires cair, se entretanto me vires no chão, não me apanhes, não me ajudes, pensa que
já ninguém passeia nos cardos e que o amor, para castigo dos que morrem, recomeça
num outro lugar, seguramente à tua espera. depois sorri mesmo que te seja difícil, se por
mais difícil que seja para mim ver-te sorrir é entre os cardos que devo partir, quando
fugazmente te souber passando, tão parecida com ires buscar a felicidade sem mim ...


valter hugo mãe


quinta-feira, 21 de julho de 2011

Nós que não desatam





Quando um dia tu partiste a ti jurei


De olhos postos nesse espelho a que me vi


Que ninguém me há-de ver triste e então pintei


Os meus lábios de vermelho para ti


João Monge ( a lua de Maria Sem )

Juro





Mas sente agora a minha crueldade sem defesa, porque to confesso e confesso em verdade e com verdade: se de alguma coisa tive medo foi do teu riso trémulo e poroso como um desmaio, do recorte dos ombros, da tua camisola verde - de um poema de Byron.
E, sobretudo, sim, da tua grande, da tua imensa tristeza.
E só por isso me doeu o deserto que te (e me) arrastava; tantas as mágoas, as afinidades, as cumplicidades.
Porque nós somos únicos e raros.
Juro.


Eduarda Chiote

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Dizer adeus





...
tão fácil assim
dizer adeus
sabendo que deus nem sequer assiste
à despedida


Alice Vieira

sábado, 16 de julho de 2011

Dias assim





O bolso cheio de pedras, mas os rios todos secos.
Há dias em que até afundar é impossivel


Eduardo Baszczyn

quinta-feira, 14 de julho de 2011

MAGNÓLIA






Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página
E aproveito o facto de teres chegado agora
Para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.
A magnólia cresce na terra que pisas — podes pensar
Que te digo alguma coisa não necessária, mas podia ter-te dito, acredita,
Que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos. Ou melhor,
Que a magnólia — e essa é a verdade — cresce sempre
Apesar de nós.
Esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
Pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
A flor que se abrir é já um pouco de ti. E a flor que te estendo,
Mesmo que a recuses
Nunca a poderei conhecer, nem jamais, por muito que a ame,
A colherei.

A magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
E eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão





Daniel Faria

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Das manhãs





Levantou-se a manhã nos meus cabelos
Como se fosse um pássaro em viagem.
E eu estendi as mãos para tocá-los
Não sei se por amor se por coragem.
Então dormiram estrelas no meu leito,
Então domei corcéis de solidão.
Por ti rasguei estradas sobre o peito
Para poder chegar ao coração

Joaquim Pessoa








terça-feira, 12 de julho de 2011

Sem saber





Um dia um desconhecido virá ao meu encontro na rua , e dirá:


conheço-te, sou a tua imagem perdida numa noite dentro do espelho.
Ficarei a olhar-me no seu rosto exactamente igual ao meu,


sem saber por onde fugir-me




Al Berto

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Paro





se não me queres no vento agreste
paro de te soprar no coração...







valter hugo mãe

sábado, 9 de julho de 2011

Desacertos





Que trabalho exasperado, o da língua,
essa em que dizes com mão insegura
desvios, des
acertos, desalinhos


Eugénio de Andrade

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Os dias para sempre





venho para te cortar os
dedos em moedas pequenas e
com elas pagar ao coração o
mal que me fizeste


valter hugo mãe

(0 poema da semana na agenda "os dias para sempre")

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Quem dorme à noite comigo ?





Quem dorme à noite comigo?
É meu segredo, é meu segredo!
Mas se insistirem, desdigo.
O medo mora comigo,
Mas só o medo, mas só o medo!

E cedo, porque me embala
Num vaivém de solidão,
É com silêncio que fala,
Com voz de móvel que estala
E nos perturba a razão.

Que farei quando, deitado,
Fitando o espaço vazio,
Grita no espaço fitado
Que está dormindo a meu lado,
Lázaro e frio?

Gritar? Quem pode salvar-me
Do que está dentro de mim?
Gostava até de matar-me.
Mas eu sei que ele há-de esperar-me
Ao pé da ponte do fim.


Reinaldo Ferreira







terça-feira, 5 de julho de 2011

Dias Assim





mas já me doem as veias quando te chamo
o coração oxidado enjaulou a vontade de te amar
os dedos largaram profundas ausências sobre o rosto
e os dias são pequenas manchas de cor sem ninguém

Al Berto

sábado, 2 de julho de 2011

Fogo Posto





Estão aqui 37 graus.

É um corpo.

E ninguém se aproxima senão para recuar.

Devorar.

Ou ficar.


Vasco Gato





sexta-feira, 1 de julho de 2011

Por isso





Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro
. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho, no mosto aberto
- no amor mais terrível do que a vida.

Herberto Helder