quarta-feira, 30 de setembro de 2015

terça-feira, 29 de setembro de 2015




Não entrar como turista no coração de uma mulher 
 fazendo fotos 
deixando latas de cerveja
 procurando só catedrais imensas
 e estátuas transparentes
 com a mochila cheia de mapas
 e fazendo comida rápida
 há um país
 sete cidades
 uma cordilheira e um inverno 
no coração de uma mulher
 não bebas só um copo de mar ali
 não entres no avião
 apanha o comboio da meia lua 
 não reveles ali as tuas fotos em uma hora
 se não estiver muito frio entra nu 
 não leves guarda chuva
 e sobretudo não cortes árvores no coração de uma mulher
 não costumam voltar a crescer. 






 José Maria Zonta

segunda-feira, 28 de setembro de 2015




No outro lado da noite o amor é possível 
- leva-me - 






 Alejandra Pizarnik

domingo, 27 de setembro de 2015




Eu conheço uma música frágil como a chuva ou as lágrimas evitadas. É uma música que ouço muitas vezes enquanto escrevo ou leio, ou que ecoa dentro de mim enquanto leio o que escrevi. 

Cada vez que a ouço, que percorro o teclado infindável do piano onde me refugio, esqueço-me do que escrevi e leio as lágrimas que não chorei sulcadas no meu rosto, à espera que chovesse. 

Que me lembre, é uma música onde tu não estás. Uma música que se calhar não existe, ou não existe assim, e não passa de uma desajeitada desculpa para finalmente poder chorar. 






 Jorge Fallorca

sábado, 26 de setembro de 2015




Eu tenho lido em mim, sei-me de cor, 
Eu sei o nome ao meu estranho mal






 Florbela Espanca
 (Foto de Nishe)

sexta-feira, 25 de setembro de 2015




Regulamento


Artigo 1.º Não estacione o coração em becos sem saída (demore o tempo estritamente necessário para largar despedidas ou carregar abraços)

 Artigo 2.º Se beber, com o intuito de se lavar por dentro, não conduza (é quase impossível dar banho ao pensamento sem molhar a lucidez) 

 Artigo 3.º Antes de atravessar a realidade, pare, escute e olhe, certifique-se de que não existem ilusões em contra-mão (descalce os caminhos que já não lhe servem – caminhos são sapatos que a terra nos oferece para descalçar irrealidades) 

 Artigo 4.º Não abra a boca a beijos desconhecidos (especialmente aos conhecidos que se fazem desconhecer) 

Artigo 5.º Evite adormecer em sonos usados (cansam mais do que subir o infinito a pé) 

 Artigo 6.º Seja mais sonhamor e menos sonhador (a dor não faz falta. Cria ausências) 

 Artigo 7.º Nunca faça amor em locais proibidos, salvo em legítima defesa da saudade. 





 Heduardo Kiesse

segunda-feira, 21 de setembro de 2015




entro no silêncio
 como num vestido






 Valeria Pariso
 (Foto de Cristina Coral)

sábado, 19 de setembro de 2015




A mão
 que entregava à tua
 os primeiros sinais do verão
 já não sabe o caminho ─ é como se 
em vez de aprender fosse cada vez mais 
e mais ignorante. Ou ignorar
 fosse todo o saber. 






Eugénio de Andrade

sexta-feira, 18 de setembro de 2015




Já não sei o que disse e o que disseste: 
 o verão desarruma os sentimentos. 






 Maria do Rosário Pedreira

quinta-feira, 17 de setembro de 2015




Veio do outro lado do mar 
 pronunciado pelo fogo
 e jaz nos jardins suspensos sobre a morte
 como um vómito do coração
 o nome podre de ninguém 






 António José Forte
 (Foto de Mariam Sitchinava)

domingo, 13 de setembro de 2015




Vêm aí dias mais duros. 
 O tempo provisoriamente adiado
 aparece já no horizonte. 
 Em breve terás que laçar os sapatos
 e prender os cães nos quinteiros.
 As entranhas dos peixes
 terão arrefecido ao vento. 
 Já se apaga o fulgor dos tremoceiros. 
 O teu olhar sonda a névoa: 
 o tempo provisoriamente adiado
 aparece já no horizonte. 
 Ao longe a tua amada enterra-te na areia, 
 que lhe cobre os cabelos soltos,
 lhe corta a palavra, 
 lhe ordena que se cale, 
 e a acha mortal
 e disposta ao adeus 
 depois de cada abraço.
 Não olhes para trás. 
 Aperta os sapatos. 
 Corre com os cães. 
 Atira ao mar os peixes. 
 Apaga os tremoceiros! 
 Vêm aí dias mais duros.






 Ingeborg Bachman

sábado, 12 de setembro de 2015




Tenho sono, a dor intensa de um sono que não me adormece. 
 Nele, os vultos quase adquirem rosto, quase são o lugar da confidência.
 Choro o lugar desocupado. 






 Rui Nunes

terça-feira, 8 de setembro de 2015




algo me devora
 fumo demais
 bebo demais
 morro lentamente demais 






 Heiner Müller

segunda-feira, 7 de setembro de 2015




Da fossa dos teus anos te tirei do lameiro 
 e mergulhei-te nas águas do meu Verão
 lambi-te mãos cabelo corpo inteiro
 jurei ser minha e tua até mais não. 
 Tu deste-me a volta. Gravaste a fogo brando
 a tua marca na minha pele fina. 
 Renunciei a mim. E eis senão quando
 me começo a afastar da minha sina 
 e de mim própria. A princípio ainda a recordação
 um belo resto chamando por mim. 
 Mas nessa altura estava já dentro de ti
 de mim escondida. Bem me escondeste então. 
 Perdi-me toda em ti, de mim nem cheiro: 
 e então cuspiste-me de corpo inteiro 






 Ulla Hahn

domingo, 6 de setembro de 2015

sábado, 5 de setembro de 2015




Sei hoje que o amor é a necessidade de dar um rosto a determinadas palavras 





 Rui Nunes

quinta-feira, 3 de setembro de 2015




Se tivesse carta, faria sentido comprar um automóvel; 
poderia, então, meter o sofrimento na mala e abandoná-lo num outeiro. 



(estou cansada deste blog)



Miguel Martins
 (Foto de Mariam Sitchinava)

quarta-feira, 2 de setembro de 2015




Entraste na noite
 pelo lado da solidão. 
A ela contas que sais com eles 
a eles que sais com ela. 
Encaminhas o velho Renault 4 
para certo lugar desabitado 
da cidade.
 Fizeste entrar um corpo, 
acenderam um cigarro enquanto 
procuras um retiro pelas sombras. 
Silencias a sua voz quando quer falar-te, 
com um gesto decides
 forma de desejo. 
Entraste num corpo 
pelo lado da solidão.
 Por um instante sentiste-te bem
 mas não o dizes, 
embora não consigas reprimir
 uma carícia no vidro embaciado. 
Atrás da porta que fechou deixa-te 
um rastro de perfume ignóbil
 que aspiras com deleite: 
como o símbolo o queres 
para quando queimar a claridade 
da manhã.





 José Ángel Cilleruelo
(tradução de Joaquim Manuel Magalhães)