quarta-feira, 29 de junho de 2011

E voltar entre ruínas





A primeira coisa a fazer é escolher a faca
ou por outras palavras a maneira de poder acordar em camas desfeitas
de luas e mares
sonhando com o verão e todos os seus crimes lentos
depois há que não dar tréguas
e ocultar de imediato as provas
ou por outras palavras
desabitar de ti as ruas os quartos as molduras
a velha canção inutilmente decorada
e abrir a porta a quem chega desprevenidamente
e encontrar o teu rasto ainda intacto
e servir o café e a cicuta na mesma bandeja
Mas acima de tudo edificar de novo a casa entre ruínas
ou por outras palavras
enterrar na garganta um nome que era nosso
apagar dos muros da cidade os vestígios da noite
e por breves segundos iluminar ainda do teu sangue
a madrugada em que te perco

E fecho os olhos
E abro o gás



Alice Vieira







quarta-feira, 22 de junho de 2011

Ir embora





A hora da partida soa quando

escurece o jardim e o vento passa,

estala o chão e as portas batem...











Sophia de Mello Breyner A.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Duvidas





Quando, daqui a umas horas, a manhã vier branca e fria, saberei eu andar ?
Lembrar-me-ei de como se põe um pé à frente do outro?
Sem cair....



Al Berto

Dias Assim





Ando muito completo (a) de vazios.


Manoel de Barros

Soneto menor à chegada do verão





Eis como o vento
chega de súbito,
com seus potros fulvos,
seus dentes miúdos,

seus múltiplos, longos
corredores de cal,
as paredes nuas,
a luz de metal,

seu dardo mais puro
cravado na terra,
cobras que despertam
no silêncio duro...

Eis como o verão
entra no poema.



Eugénio de Andrade


segunda-feira, 20 de junho de 2011

Como se esquece ?





Para esquecer uma pessoa não há vias rápidas, não há suplentes, não há calmantes, ilhas e viagens, livros de poesia, copos ou amigos.

Só há lembrança, dor e lentidão, com intervalos no meio para retomar o fôlego.


Miguel Esteves Cardoso

sábado, 18 de junho de 2011

Palavras à flor da pele





Não digas que conheces minhas dores
Deixas-me com meus desamparos
Não sabes do estio dos meus lábios
E das marcas que abraçam minha solidão
Pedaços de ti que arranham meu corpo

Não penses que é melhor assim
Nem pressuponhas que a saudade finda
Como se o teu silêncio e deserção
Apagassem o perfume do desejo
Ou a inquietude de sentir-te em mim

Não me obrigues a entender a crueldade
Prefiro ignorar esta estrada que dizes destino
Não quero dar-te ao esquecimento dos sentidos
Nada sei destas trilhas em que sucumbes
Soterrado pelos passos que te negas

Não me convides às tuas renúncias
Nem me batizes nestas águas
Que sangram e definham teu peito
Tenho ardores de vida que me cingem
Férteis à espera que te resgates de ti

Não me amputes de mim, dos meus sonhos
Nem me indiques tuas confortáveis saídas
Prefiro o rasgar de entranhas, a febre do sentir
Ao discurso patético do conformismo
Lanço à fogueira, a impotência, o desistir

Sim, hoje estou em carne viva
Palavras à flor da pele, despindo-se
Ainda que seja este um grito confinado
Ao subterrâneo do meu mundo
Este que já não te alcança.



Fernanda Guimarães

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Noites Assim





Deixaste-me sobre a pele um rasgão que ( ainda ) dói.

Mas quando a memória da noite consegue trazer-te intacto, fecho os olhos, o corpo e a alma latejam de dor.



Al Berto

Previsão do estado do corpo para hoje





Tenho uma guerra dentro da minha pele.
Necessito respirar.


Egito Gonçalves




quarta-feira, 15 de junho de 2011

Da insónia





Do dia em que saíste sobrou a insónia
Método mais que imperfeito para medir as noites...


Maria Sousa

terça-feira, 14 de junho de 2011

A bêbada e o equilibrista





Seria agradável estar bêbeda:
infiel à minha língua e mãos,
desistindo de limites
pelo heróico gin.
Bêbeda de morte
é a expressão em que estou a pensar,
insensata,
nem fria nem quente,
Sem cabeça ou pé.
Estar bêbeda é ser íntima de um louco
Vou tenta-lo brevemente





Anne Sexton

segunda-feira, 13 de junho de 2011

A dor de todas as ruas vazias


Pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração

ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo



Al Berto





COME CHOCOLATES, PEQUENA; COME CHOCOLATES!




Fernando Pessoa (Alvaro de Campos)

É um lugar ao sul

É um lugar ao sul, um lugar onde


a cal amotinada desafia o olhar


Onde viveste.


Onde ás vezes no sono vives ainda.


O nome prenhe de água escorre-te da boca


Por caminhos de cabras descias á praia


o mar batia naquelas pedras, naquelas sílabas


Os olhos perdiam-se afogados


no clarão do ultimo ou do primeiro dia


Era a perfeição





Eugénio de Andrade


quarta-feira, 8 de junho de 2011

Fogo Posto

Dói-me a sede deste fogo aceso que não arde


Daniel Faria

Ouvi dizer

A cidade está deserta,

E alguém escreveu o teu nome em toda a parte:

Nas casas, nos carros, nas pontes, nas ruas.

Em todo o lado essa palavra

Repetida ao expoente da loucura!

Ora amarga! Ora doce!

Pra nos lembrar que o amor é uma doença,

Quando nele julgamos ver a nossa cura!


Ornatos violeta

terça-feira, 7 de junho de 2011

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Musica para noites perdidas


Das coisas impossíveis

trinta cisnes no lago dos teus olhos. foi o que disse. não significa nada. não poderiam aí nadar. foi uma imagem. uma ideia. uma vontade grande de dizer que te amo e que vejo em ti tudo quanto sendo impossível faria da vida um lugar perfeito








Valter Hugo Mãe

domingo, 5 de junho de 2011

Escrever-te


Há em mim uma luta entre o desejo de que te esqueça e o de endoidecer contigo



Vergílio Ferreira (Cartas a Sandra)

sábado, 4 de junho de 2011

Noites perdidas


Quando cheguei a casa as minhas mãos traziam ainda o teu cheiro.

a minha boca abandonada na segunda metade de um beijo

mastigava palavras que te amariam se as deixasses pousar-te na pele.

Não quis adormecer para não ter de acordar sem ti mas acordei.


E a manhã é um silêncio

E o teu toque uma mentira.


Pedro Jordão

sexta-feira, 3 de junho de 2011

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Ultimo brinde

Bebo ao lar em pedaços,

À minha vida feroz,

À solidão dos abraços

E a ti, num brinde, ergo a voz...

Ao lábio que me traiu,

Aos mortos que nada vêem,

Ao mundo, estúpido e vil,

A Deus, por não salvar ninguém.

Ana Akhmátova

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Vestidos secretos





A quem deixar o meu guarda-roupa oculto
o guarda-roupa fantasma
de todos os vestidos
que tive e que me abandonaram
os vestidos
que nunca tive e que vesti em segredo
O vestido que veio demasiado cedo
e que nunca me caiu bem
o vestido
que chegou já tarde
para ir à festa
quando eu já tinha adormecido

O vestido de criança
tão igual ao vestido
da primeira boneca
O da menina com o corpete já estreito
que apertava os seios doendo-lhe em casulo
O da adolescente que pressentia o homem
ladrão de túnicas na sesta sufocante

O vestido esquecido
da mulher que sob a sombra
do homem eclipse ocultou-se uma noite
e amanheceu como a lua cheia
surpreendida pela luz na metade do céu

O vestido de guerra rasgado
como bandeira
da mãe partida em dois
para sentir-se inteira

O vestido de luto que não levei para os meus
mortos
que ainda vivem

Os vestidos que alguém me emprestou para sonhar

...Quando chegar a morte também será um vestido
que não verei porque estarei a dormir
.




Josefina Plá