terça-feira, 27 de junho de 2017

morangos silvestres




Cóleos begónias avencas 
 aprendo o nome das plantas 
 e de manhã como fruta
 (não era o que tu dizias?) 
 antes de tomar café.

 Mas a seguir ao café 
 sobra-me um dia comprido. 
 Não sei que fazer sem ti
(não há morangos silvestres) 

 não sei que fazer comigo






 Ivette Centeno
 (Foto de Laura Makabresku)

segunda-feira, 26 de junho de 2017

por ter ficado




nada mudou jamais - e o meu passado é 
ainda o nosso passado; e o rosto que tinha antes
 de me deixares é o que o espelho me devolve no
 presente 







 Maria do Rosário Pedreira

domingo, 25 de junho de 2017

destroços




Esqueci­-me do teu nome.
 Um nome que se esqueceu é a falta de um nome?
 Um nome é a falta de todos os nomes. 
 Mas um nome que falta, o que é? 








 Rui Nunes

sexta-feira, 23 de junho de 2017

quarta-feira, 21 de junho de 2017

esse nome




Encontrei-o no bolso do primeiro 
casaco deste verão. Frio. Toquei-lhe
 o corpo das letras devagar como se
 fosse mão que me aguardasse. Frio. 

 Trouxe-o aos olhos com desejos de
 lembrar-me que tarde e de que verão; 
li com os lábios esse nome que talvez 

 me livrasse da doença, tentei escutá-lo
 numa voz que me estendesse os dedos. 
Frio, frio. 







 Maria do Rosário Pedreira

terça-feira, 20 de junho de 2017

segunda-feira, 19 de junho de 2017

labirinto




Eu vi o sobressalto. 
Nesse bosque de lâminas e luvas
 tocaste cada coisa como
 um grito.

 E amaste a minha boca
 como quem corta
 os pulsos ao silêncio. 

 Se o vento te derrama 
entre folhas e cinza 
é sempre a mesma voz que não perdoa

 a mesma lei 
 o mesmo labirinto. 







 Armando da Silva Carvalho
 (Foto de Mariam Sitchinava)

sexta-feira, 16 de junho de 2017




Já não sei o que disse e o que disseste:
 o verão desarruma os sentimentos. 








 Maria do Rosário Pedreira

quinta-feira, 15 de junho de 2017

tenho errado menos as quedas




quando a última palavra se fechou alguém deve ter apertado
 o gatilho porque o corpo deixou-se ir ao chão despedaçado. 
 permaneceu intacta uma cadeira vazia e foi demasiado. 
 é verdade que tenho errado menos as quedas com que te
 persigo mas a fragilidade é apenas uma distracção do corpo. 
 quem é inteiro não cai.







 Pedro Jordão

quarta-feira, 14 de junho de 2017

terça-feira, 13 de junho de 2017




Sinto que há uma estranha eternidade naquilo que amámos
 e foi destruído 






 Al Berto

segunda-feira, 12 de junho de 2017

segredo




Antes eu não sabia
 porque é que se deve
 - dia após dia – 

 andar sempre em frente
 como se diz até 
o corpo aguentar. 

 Agora sei. 
Se vieres comigo 
digo-te. 







 José Agustín Goytisolo

sábado, 10 de junho de 2017




Hay que salvar al viento 
los pájaros queman el viento
 en los cabellos de la mujer solitaria 
que regresa de la naturaleza
 y teje tormentos 
Hay que salvar al viento





 Alejandra Pizarnik
 (Foto de Laura Makabresku)

 (Obrigada)


sexta-feira, 9 de junho de 2017

como nos filmes




Quando ela corre rápido pela 
rua até aos teus braços desejas
 que tudo seja em câmara-lenta -
 o momento do abraço quando a primeira
 coisa que tocas é o seu perfume -
 levas o nariz ao teu cabelo
 como uma língua. Fechas
 os olhos como nos filmes - 
à espera que a música comece, 
que uma canção seja cantada por alguém, 
com palavras como - Isto é amor. 
Será sempre amor. Isto é amor. 
Será sempre amor.







 E. Ethelbert Miller

quinta-feira, 8 de junho de 2017

quarta-feira, 7 de junho de 2017

uma coisa cá dentro




perguntou-me se tinha medo do escuro e eu senti uma coisa cá dentro, 
um consolo, um júbilo, um alívio, a certeza de regressar a casa
a seguir a uma viagem sem fim porque quando uma mulher
 pergunta a um homem se tem medo do escuro
 é sinal que quer ficar com ele para sempre, 
é sinal que quer ficar com ele muito tempo. 






 António Lobo Antunes

terça-feira, 6 de junho de 2017




Antonio Lobo Antunes



Tenho muita admiração pelo indigitado autor, mas julgo que a afirmação não respeita apenas ás mulheres. 
 Porque esquecer um homem inteligente dá, também, um trabalho imenso. 
 E, se houvesse verdadeira igualdade de sexos, seguramente que muitas de nós confessariam
 quantos homens estúpidos esse esquecimento lhes teria custado.
 E suportar homens menos dotados intelectualmente, é capaz de ser muitíssimo indigesto! 
O problema é que os homens só em teoria apreciam mulheres inteligentes. 
 Na prática, isto é no quotidiano, preferem, quase sempre as outras, 
 que dão manifestamente muito menos trabalho.



 Helena Sacadura Cabral





domingo, 4 de junho de 2017

não acredito em regressos




Não creio em retornos
 mas este amargo coração de casas velhas e ruas esburacadas
 late em cada regresso
 sem mais aquelas 
sabendo que o mundo é mau sítio para chegar 

 E volta-se a escrever um poema sobre uma rapariga num aeroporto 
esperando um avião sabe-se lá donde
 ou então escrever sobre a carta que não recebi naquele sábado
 escutando a velha cassete das minhas nostalgias favoritas
 ou ainda sobre os versos roubados a Salinas, Borges, Walcott
 e as tardes de sol no estádio de futebol

 Não acredito em regressos 
mas este seco coração de outra era canta a destempo 
o céu queimando o nome de uma mulher que amei 

 Não creio em retornos 
mas sempre que parto para a tempestade do mundo
 a minha vocação de viajante leva-me, como nos tempos de escuteiro, 
 a deixar pedrinhas e migas de pão
 para não perder o caminho de regresso ao teu corpo.







 Federico Díaz-Granados
 (Trad Albino Matos)

sexta-feira, 2 de junho de 2017




A memória, essa areia movediça onde enterrei a sombra do teu nome, 
 continua a doer.







Al Berto

quinta-feira, 1 de junho de 2017

o que foi passado a limpo




Que peso tem agora a dor nessa balança 
 cujo fiel nem tu consegues
 acertar?






 Armando Silva Carvalho
 (Foto de Katia Chausheva)

quarta-feira, 31 de maio de 2017




Hay cicatrices que se rebelan para volver
 a su condición primera: heridas. 








 Alejandra Pizarnik

terça-feira, 30 de maio de 2017

por dentro




A noite -a hora em que tudo é imenso como um olhar cego.
 A hora em que estamos a sós connosco, com esta coisa terrível
 que somos nós por dentro vivíssimos
 e não há público nenhum para nos ajudar.








 Vergílio Ferreira

segunda-feira, 29 de maio de 2017

sexta-feira, 26 de maio de 2017

é o amor debruçado no silêncio




é a visita do tempo nos teus olhos,
 é o beijo do mundo nas palavras
 por onde passa o rio do teu nome; 
é a secreta distância em que tocas
 o princípio leve dos meus versos;
 é o amor debruçado no silêncio
 que te cerca e que te esconde:
 como num bosque, lento, ouvimos 
o coração de uma fonte não sei onde 







 Vítor Matos e Sá
 (Foto de Nishe)

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Onde estará?




Eu estou sempre aqui. 
 Eu estou sempre 
aqui. 
Eu estou
 Sempre
 aqui. 

 Telefona-se. 
Não está.





 Ruy Cinatti
 (Foto de Natalia Drepina)

quarta-feira, 24 de maio de 2017




Porque não é verdade que o tempo cure todas as feridas






 Stig Dagerman
 (Foto de Laura Makabresku)

segunda-feira, 22 de maio de 2017

o cansaço




Olho constantemente para o mapa 
mas já não me lembro para onde queria ir. 
Podia ficar aqui,
 enquanto a noite respira nas janelas embaciadas. 
Os móveis apagam-me os passos 
em ângulos cegos
 e, nessas sombras do incerto, 
deixo que o cansaço me tire a peruca da paciência 
assim como a noite nos tira a roupa 
antes de dormir. 

 Isolado num cantinho da boca entreaberta,
 o teu sorriso
 vai contribuindo para o genocídio dos camarões
 que o vinho branco torna sempre menos sangrento. 
Poderia, de facto, ficar aqui 
enquanto desapareces, por fim, num sono sem importância. 

 Vou esvaziando os copos 
e começo a compilar beijos, 
como quem junta, à pressa, moedas caídas pelo chão:
 somos todas putas, rapaz, 
com ou sem vodka. 







 Golgona Anghel
 (Foto de Mariam Sitchinava)

sexta-feira, 19 de maio de 2017




Quem é esta mulher, 
 a sempre triste,
 que vive no meu coração? 
 Quis conquistá-la mas não consegui. 

 Adornei-a com grinaldas
 e cantei em seu louvor
 Por um momento
 bailou o sorriso no seu rosto, 
 mas logo se desvaneceu.

 E disse-me cheia de pena: 
 — A minha alegria não está em ti.

 Comprei-lhe argolas preciosas, 
 abanei-a
 com leques recamados de diamantes, 
 deitei-a em cama de oiro 
 Bateu as pálpebras 
 como um relâmpago de alegria
 que logo se apagou.

 E disse-me cheia de pena:
 — Não está nessas coisas a minha alegria. 

 Sentei-a num carro de triunfo, 
 e passeei-a por toda a terra. 
 Milhares de corações conquistados
 caíram humildes a seus pés, 
 e as aclamações reboaram pelo céu 
Durante um momento
 brilhou o orgulho nos seus olhos, 
 mas logo se desfez em lágrimas.

 E disse cheia de pena:
 — Não está na vitória a minha alegria 

 Perguntei-lhe:
 — Que queres então? 
 Respondeu-me:
 — Espero alguém 
 que não sei como se chama. 
 Depois calou-se.

 E passa os dias a dizer cheia de pena:
 — Quando virá o amado desconhecido?
 Quando o conhecerei para sempre? 







 Rabindranath Tagore

segunda-feira, 15 de maio de 2017

domingo, 14 de maio de 2017

algures




A madrugada desponta e mais um dia 
Se prepara para o calor e o silêncio. No mar o vento da 
madrugada 
 Encrespa-se e desliza. Eu estou aqui 
Ou ali, ou algures. No meu começo. 






 T.S. Eliot
 (Foto de Nishe)

sexta-feira, 12 de maio de 2017

herança




Escuta, escuta: tenho ainda
 uma coisa a dizer. 
Não é importante, eu sei, não vai 
salvar o mundo, não mudará 
a vida de ninguém - mas quem
 é hoje capaz de salvar o mundo 
ou apenas mudar o sentido
 da vida de alguém?
 Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
 que vem vindo devagar. 
São três, quatro palavras, pouco
 mais. Palavras que te quero confiar,
 para que não se extinga o seu lume, 
o seu lume breve. 
Palavras que muito amei, 
que talvez ame ainda. 
Elas são a casa, o sal da língua.








 Eugénio de Andrade

quinta-feira, 11 de maio de 2017

as tuas mãos queimam-me a fala




e tu sussurras: 
 - não, não afastes a boca da minha orelha.
 derrama dentro dela aquilo que não consegues dizer em voz alta.
 e eu digo: 
 - as tuas mãos queimam-me a fala. 
 tu sorris, dizes:
 - vem, sem medo, pela aridez do meu corpo.






 Al Berto
 (Foto de Laura Makabresku)

segunda-feira, 8 de maio de 2017




O "lugar onde" é sempre dentro de nós. 







 Miguel Martins
(Foto de Anka Zuravleva)

sábado, 6 de maio de 2017




Os que se amaram devem ficar cegos.
 Para que os seus gestos sejam sem sentido.
 Para que os seus barcos girem sem graça nem proveito. 
Como as tempestades
cegos.

 Cegos como as bandeiras depois da vitória 
ou como as espadas que estão sempre nuas e gloriosas. 

 Que rancor pelos cegos 
 e pelas tempestades.
 E pelos que acreditam que o amor é fartura. 
Ouvi-o bem: O amor é a fome. 






Carmelina Soto
(Foto de Mariam Sitchinava)

sexta-feira, 5 de maio de 2017

dor de amor quando não passa






(é porque o amor valeu)








Saber que não se escreve para o outro, saber que isto que vou escrever não me fará nunca ser amado por quem amo, 
saber que a escrita nada compensa, nada sublima, que está precisamente aí onde tu estás, - é o começo da escrita. 








 Roland Barthes

quinta-feira, 4 de maio de 2017




o que fica de todas as perdas: 
 uma lucidez suja






 Rui Nunes
 (Foto de Katia Chausheva)

quarta-feira, 3 de maio de 2017

e ficavas




Havia um tempo em que esperar por ti
 era consulta a meteorologia: 
preparar coração, achar ali, 
na coluna do lado, em geografia 

 de página, ou écran: coisa parecida
 o sol bem desenhado, os raios com
 a palavra por baixo, indicativa
 de que amanhã o tempo ia ser bom. 

 Mas não era a palavra, era o ruído, 
eu sem saber o que fazer comigo, 
e o sol, caracol longo a demorar- 

 -se - assim era ele oblíquo de rimar;
 porque eu sabia que o que ali rimava 
estava em saber que vinhas. E ficavas. 







 Ana Luísa Amaral

terça-feira, 2 de maio de 2017




Por mim, é por isso que oculto as mãos. 
Tenho-as todas queimadas








 Herberto Helder
 (Foto de Anka Zhuravleva)

quinta-feira, 27 de abril de 2017

desamor




Foto de Sónia Silva


O grau mais baixo numa relação que se julgou de amor não
 é o instante em que as pessoas se começam a ferir. Porque as
 mágoas podem ser um ponto de partida para recomeçar. o mais
 fundo entre duas pessoas que partilharam camas e sonhos é 
o momento em que o outro já nem sequer nos consegue ferir. 
O momento em que olhamos através dele como se não existisse 







 Luís Osório

quarta-feira, 26 de abril de 2017

manual de fuga




Resta-me o abandono passivo a uma íntima ternura, à sua obscura beleza,
 para lá de tudo o que é belo e que me humedece o olhar.
 Como quem ama ainda uma mulher e lhe não pode tocar. 
Como quem envelhece e entende a vida apenas na sua longa melancolia.









Vergílio Ferreira

segunda-feira, 24 de abril de 2017




O poema é ver 
com lanternas
 que cor é a cor 
do escuro. 







 Eucanaã Ferraz