quinta-feira, 27 de abril de 2017

desamor




Foto de Sónia Silva


O grau mais baixo numa relação que se julgou de amor não
 é o instante em que as pessoas se começam a ferir. Porque as
 mágoas podem ser um ponto de partida para recomeçar. o mais
 fundo entre duas pessoas que partilharam camas e sonhos é 
o momento em que o outro já nem sequer nos consegue ferir. 
O momento em que olhamos através dele como se não existisse 







 Luís Osório

quarta-feira, 26 de abril de 2017

manual de fuga




Resta-me o abandono passivo a uma íntima ternura, à sua obscura beleza,
 para lá de tudo o que é belo e que me humedece o olhar.
 Como quem ama ainda uma mulher e lhe não pode tocar. 
Como quem envelhece e entende a vida apenas na sua longa melancolia.









Vergílio Ferreira

segunda-feira, 24 de abril de 2017




O poema é ver 
com lanternas
 que cor é a cor 
do escuro. 







 Eucanaã Ferraz

domingo, 23 de abril de 2017

hoje acordaste de uma forma diferente dos outros dias






"e de repente descobres é a hora de olhares para dentro

porque há qualquer coisa que não bate certo
qualquer coisa que deixaste para trás em aberto"








sexta-feira, 21 de abril de 2017

palavra por palavra




Nestas tardes de meia-idade e muita fábula
 a mentira é um jogo 
 e a calma
 uma segunda natureza em andamento. 
 Devemos pois pisar o escorpião
 que nos invade
 a sala com a voz aclimatada 
 às suas venenosas pinças telefónicas. 
 E em sossego destruir pena por pena 
 o pássaro do desejo. 
 E depois o sexo - palavra por palavra 







 Armando Silva Carvalho
 (Foto de Ezgi Polat)

quinta-feira, 20 de abril de 2017




apetece-me palavras 
para entreter a boca enquanto 
não as espanta o grito que
 já espreita debaixo da língua 







 Bénédict Houart
 (Foto de Nishe)

quarta-feira, 19 de abril de 2017

escreve-se




Isto sim, é um problema,
 leio-me
 e dou conta
 que todo ele, 
negado, saqueado da minha mente,
 esvaziado do meu sangue, 
instalou-se em silêncio
 no túnel cárpico da minha mão direita. 
E escreve-se. 







 Valeria Pariso
 (Trad. A.M.)

segunda-feira, 17 de abril de 2017

(soubesse eu desenhar corações)















Por vezes a memória reacende paixões.
 É o tempo de viver noutro corpo reduzido à breve nudez
 de um verso. Um verso que seja é suficiente para adiar a morte. 








 Al Berto
 (Foto de Ralph Gibson)

domingo, 16 de abril de 2017




era a manhã trepando às dunas, 
 era o céu de cal onde o sul começa, 
 era por fim o mar à porta – o mar, 
 o mar, pois só o mar cantava assim.






 Eugénio de Andrade
 (Foto Cacela Velha)

quinta-feira, 13 de abril de 2017




Deixo-vos as maçãs verdes sobre a mesa. 
Com o tempo, tudo há-de amadurecer. 






José Agostinho Baptista

quarta-feira, 12 de abril de 2017

adiante




No quarto, nem sequer de hóspedes, no quarto 
escuro das arrumações, fui dar com a minha
 vida, e em que lindo estado. No meio de uma
inqualificável tralha, lá estava ela, ao fundo,
 a minha vida, «encore bien que je te trouve!», 
inqualificável tralha, lá estava ela, ao fundo,tão anémica 
que metia dó. Que situação tão constrangedora, 
pensei, sem lho dar a entender. Que posso
 eu fazer por ti que seja não fugir depressa 
daqui ou enfiar-me logo pelo chão abaixo?
 E tu, minha vida, vá, deixa-te ficar, «tant mal 
que bien», e olha que o quarto também não é tão 
mau assim. E desacompanhada não ficas nunca 
(seria aliás difícil, com toda a tralha em volta...) 
e olha que nestas coisas é como no demais, é como
 em certos casamentos: NÃO DEU NÃO DEU, adiante. 






 Rui Caeiro

terça-feira, 11 de abril de 2017




Quantas vezes estendi a mão e nela guardei a tua ausência?






 Al Berto
 (Foto de Laura Makabresku)

segunda-feira, 10 de abril de 2017

um desamor




É doloroso por vezes chegar a casa, encostar o corpo, 
fechar as pálpebras e sentir que a cabeça é um quarto vazio, 
um desamor só e ferido, queimadura que chega ao coração






 Joaquim Pessoa

quinta-feira, 6 de abril de 2017

de um poema




Não tenho medo de sofás vazios
 ficam na sala da minha lembrança
 como adereços de uma vida acabada 
 Desde que te esqueci revive a esperança 

 Agora tenho outro à porta em certos dias
 Deixo-o entrar levo-o para a minha cama
 e passo-lhe a mão pelos cabelos 
 como tu me fazias 

 Gosto de ti como de um quadro de um poema
 que o tempo torna nossos pessoais 
 Fazes parte de mim e tudo o mais
 já está esquecido. Longe e acabado como tu. 






 Ulla Hahn
 (Foto de Nishe)

quarta-feira, 5 de abril de 2017

o lado errado da noite




Às vezes apetece-me desejar a mim mesmo boa-noite, 
antes de me virar sobre o meu lado direito,
que é o lado em que sempre penso trazer o coração 






 João Miguel Fernandes Jorge

terça-feira, 4 de abril de 2017




Deixei os restos do nosso amor
 num saco de plástico
 no armário debaixo do lava-loiça, 
não cabiam no caixote do lixo. 
E quando levares o lixo,
 presta atenção,
 não é para caixote azul, verde ou amarelo,
 é para o cinzento, lixo doméstico comum, 
indiferenciado, o nosso amor acabado, 
e o carro passa às segundas, quartas e sextas. 






 Raquel Serejo Martins

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Abril




Abril é o mês mais cruel , gera
  lilazes da terra morta , mistura
 a memória e o desejo






T . S . Eliot
 (Foto de Ezgi Polat)

sexta-feira, 31 de março de 2017

É março ou abril?




É um dia de sol 
 perto do mar, 
 é um dia 
 em que todo o meu sangue
 é orvalho e carícia. 






 Eugenio de Andrade

quinta-feira, 30 de março de 2017

quarta-feira, 29 de março de 2017




A comprida, vagarosa língua da morte
 lambeu a mão daquele que escreve, 
lucidez ou loucura, ninguém sabe; 
só restam palavras, palavras roídas. 







 Juan Luís Panero

terça-feira, 28 de março de 2017

esperar




(...) 
tenho a certeza de que parto para sempre 
não haverá regresso nenhum
 creio que se tornaria mais fácil escrever-te de longe 
na deambulação por algum país cujo nome ainda não me ocorre
 num país com sabor a tamarindos rodeados de mar 
onde flores mirrassem ao entardecer e devagar
 a paixão nascesse durante o sono
 um país um pouco maior que este quarto
 fingiria escrever-te para te enviar a minha nova morada
 poderia assim queimar os dias no desejo de receber noticias
 inventaria mesmo desculpas plausíveis
 greves dos correios inexistentes terríveis epidemias
 catástrofes
 e na espera duma carta acabaria por me embebedar
 beber muito e esperar 
esperar
 digo tudo isto mas já não te amo
 (…)







 Al Berto

segunda-feira, 27 de março de 2017




Perdi o caminho
 e erro ao acaso. 
 Quero o que não tenho, 
 e tenho o que não quero







 Rabindranath Tagore
 (Foto de Anka Zhuravleva)

sábado, 25 de março de 2017

o meu amor é um íman na porta do frigorífico




Senta-te e limpa os lábios. 
Acende cada uma das lâmpadas
 Dos meus olhos, 
 Passa a tua mão, a mais nova, 
 Sobre a minha testa. 

 Deixa-me com a noite colada às têmporas, 
 Crisálidas saindo pela boca 
 Como um deus egípcio; 
Quando a manhã chegar 
 Mil anos de terra e esquecimento
 Tornar-me-ão amante por superstição, 
 Aquele que por medo evocarás
 Quando passeares o cão no jardim. 

 Antes de partires deixa o mapa, 
 Em rima cruzada, suspenso 
 Na porta do frigorífico.
 O amor não é um íman. 








Nunes da Rocha

sexta-feira, 24 de março de 2017

frio




ainda é cedo para saber até onde mentiram os espelhos. o único consolo para a dor é saber que o desejo pode ser inesgotável. passo os dias absorvido com trabalhos caseiros, evito pensar em ti. cavo, planto, enxerto, podo, varro, limpo, cozinho, arrumo, lavo. é cada vez mais importante não me lembrar de mim. tem soprado um vento glacial. fortíssimo, o que me desequilibra imenso. enfio um gorro de lã até às orelhas, mas de pouco serve, o vento fustiga-me à velocidade do sangue. tremo o dia todo,como se tivesse alguma febre maligna. há três dias que não como e vivo, enroscado, junto à lareira. durmo no chão, mantenho o fogo aceso noite e dia.







Al Berto

terça-feira, 21 de março de 2017

a poesia




De que vale tentar reconstruir com palavras 
O que o verão levou
 Entre nuvens e risos 
Junto com o jornal velho pelos ares 

O sonho na boca, o incêndio na cama, 
o apelo da noite
 Agora são apenas esta
 contração (este clarão)
 do maxilar dentro do rosto. 

 A poesia é o presente. 








 Ferreira Gullar
 (Foto de Mariam Sitchinava)

segunda-feira, 20 de março de 2017




Há lugares onde esperar a primavera
 como tendo na alma o corpo todo nu. 








 Herberto Helder
 (Foto de Nishe)

quinta-feira, 16 de março de 2017




A imobilidade era o seu domínio. 
Durante todo o tempo
 não dera um passo
 não esboçara um único movimento. 
Alguns animais selvagens são
 assim perante a morte
 e o perigo. 








 João Miguel Fernandes Jorge
 (Foto de Nishe)

quarta-feira, 15 de março de 2017




Deixo o corpo à sombra da flor mais alta 
Ao redor de uma lâmpada
 Apagada. Acendo a morte. 
Sou um fio a prumo, uma nuvem 
Que passa 
Uma casa aberta e fechada








 Daniel Faria

terça-feira, 14 de março de 2017




Há dias assim. Dias em que não acontece nada porque estamos surdos. 
Dias em que não acontece nada porque estamos cegos. Dias em que nada saboreamos. 
Nesses dias, não acontece nada porque não o merecemos.







Bénédicte Houart

segunda-feira, 13 de março de 2017

fazes-me falta



A vida consiste nisso mesmo: em que nos usemos, da melhor maneira que pudermos. 
 Usei-te eu como devia? 
 Porque me sobras tanto, ainda?







 Inês Pedrosa

domingo, 12 de março de 2017




Brinca comigo às escuras,
 ensina-me o que não sei 
Onde estás? Porque procuras
 o coração que te dei? 






 Fernando Pinto do Amaral

sábado, 11 de março de 2017




Um corpo é sempre a morte que regressa, 
 mas o teu é o lugar onde a esqueço. 






 Rui Nunes

sexta-feira, 10 de março de 2017

quarta-feira, 8 de março de 2017




Esqueci-me como se ama furiosamente. não venhas ter comigo. sobretudo hoje que tanto tenho pensado em ti. não venhas.
 só na ausência ainda consigo desejar-te. se aqui vieres será um dia terrível para mim. terei de fingir, de enganar-me.
 quando estás não te amo, ou amo-te tão intensamente que às vezes me parece que isto já não é amor. 






 Al Berto

segunda-feira, 6 de março de 2017




procurar o lugar que se esquiva, habituar-me à contínua fuga do mundo, 
permitir em mim o sítio onde a palavra se apagou, repousar nele como quem encontra a serenidade na desolação, 
perder, perder cada vez mais até ao indizível, não falar, não escrever, para enfim recomeçar: 
a estrada é a espera de um nome. 







 Rui Nunes
(Foto de Laura Makabresku)

quinta-feira, 2 de março de 2017

quarta-feira, 1 de março de 2017

março




Incendeio esta noite o corpo. 
Meu sangue vai coagular, compacto. Depois livre na aridez dessas 
mãos onde Março caiu como nunca vira. 
Rondo-te o fascínio. Espero o fim, o rebentar das vozes e jasmins 
ainda quentes sobre o meu ouvido.







 Isabel de Sá
 (Foto de Nishe)

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

sábado, 25 de fevereiro de 2017




Uma mão quente. 
Uma casa quente. 
Um pullover quente
 para cobrir meus pensamentos gelados. 
Um corpo quente 
para cobrir o meu corpo. 
Uma alma quente
 para cobrir a minha alma. 
Uma vida quente
 para cobrir a minha vida gelada. 








 Sonia Åkesson