sábado, 30 de janeiro de 2016




Alguém te espera ou em si espera 
Que enfim chegues 






 Maria Gabriela Llansol

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Calendário das dificuldades diárias




Por aqui andamos a morder as palavras
 dia a dia no tédio dos cafés
 por aqui andaremos até quando
 a fabricar tempestades particulares
 a escrever poemas com as unhas à mostra
 e uma faca de gelo nas espáduas 
por aqui continuamos ácidos cortantes 
a rugir quotidianamente até ao limite da respiração
 enquanto os corações se vão enchendo de areia
 lentamente
 lentamente 






 Egito Gonçalves
 (Foto de Ezgi Polat)

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016





"talvez te procure ainda, 
talvez te escreva uma carta de amor"








Vou deitar-me outra vez no meu lugar e deixar o teu à tua espera. 
Vem de noite sem eu dar conta e acordar contigo ainda no teu sono
 e tocar-te e seres tu. 






 Vergílio Ferreira
 (Foto de Laura Makabresku)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016




Há que tempos que deitamos flor pelo lado de dentro






(Foto de Laura Makabresku)

terça-feira, 26 de janeiro de 2016




A minha dor foi infinita quando ainda recordava
 o sabor dos teus lábios
 ou a forma em que o mar da tua nudez
 rompe contra a tua pele. 
Mas hoje já estou a salvo dos teus olhos, 
os corpos das outras já esqueceram o teu
 e a tudo o que espero
 já não lhe faltas tu. 
Reuni o egoísmo, 
o rancor.
 o orgulho.
 Como se vai enganar 
o que consegue em troca do que mais queria
a recompensa da sua liberdade






Benjamín Prado

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016




O amor comeu todos os meus livros de poesia




(deve ser daí que vem este vazio)



 João Cabral de Melo Neto
 (Foto de Ezgi Polat)

domingo, 24 de janeiro de 2016




Para o caso de chover na tua rua
 e quereres enxugar o corpo 
entre meus braços 
Para o caso de o silêncio te acometer 
e recordares a língua estranha 
que aprendeste a meu lado
 Para o caso de regressares
humedecendo as lembranças de luas 
Para o caso de o trópico te reclamar
 impaciente entre seus verdes
 Ou para o caso de ser noite na tua morada 
deixarei aberta a porta.






 Josefa Parra

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016




Diz-me palavras bonitas, diz-me que eu sou o teu barco e a tua viagem, a tua noite sobre a minha pele, o teu olhar na vertigem das mãos. o cigarro que arde no escuro dos espelhos, o pedaço de laranja que me ofereces , boca a boca. Vejo todo o horror do mundo quando aqui não estás. torna-se difícil erguer-me, torna-se difícil entender o que dizem e porque riem. há uma tristeza negra a escorrer pelas paredes, um sono da noite que se agarra à alma. enterrando-a em territórios longínquos, sem sentido. e eu refiro as palavras que tu já conheces, como se as dissesse pela primeira vez.- um lume flutua na fala. um lume queima os teus lábios e eu choro de alegria para dentro de mim. 






 Al Berto   (Diários)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016




Hoje é um dia reservado ao veneno 
e às pequeninas coisas
 teias de aranha filigranas de cólera
 restos de pulmão onde corre o marfim
 é um dia perfeitamente para cães
 alguém deu à manivela para nascer o sol 
circular o mau hálito esta cinza nos olhos
 alguém que não percebia nada de comércio
 lançou no mercado esta ferrugem
 hoje não é a mesma coisa
 que um búzio para ouvir o coração
 não é um dia no seu eixo
 não é para pessoas
 é um dia ao nível do verniz e dos punhais 
e esta noite
 uma cratera para boémios
 não é uma pátria
 não é esta noite que é uma pátria
é um dia a mais ou a menos na alma
 como chumbo derretido na garganta
 um peixe nos ouvidos
 uma zona de lava
 hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo
 com sirenes ao crepúsculo
 a trezentos anos do amor a trezentos da morte 
a outro dia como este do asfalto e do sangue
hoje não é um dia para fazer a barba
 não é um dia para homens
 não é para palavras 






 António José Forte

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016




o relógio, o chefe, os sapatos, as gravatas o aspirador, o fogão, o mecânico de automóveis, o transito, a tv, o sofá, o café, o tabaco, as chuvas, as luas, as chaves, as portas, a rede, a sede, o jardim, o gato, o aquário onde demasiados morrem afogados para lá da linha do equador. Então no limite da lucidez ou talvez da inconsciência, as palavras transformam - se em interrogações, o que foi feito de nós. Onde está a pessoa que eu sonhei, que eu queria ser, ou simplesmente o que eu conhecia! Chamam inconstantes aos que fazem demasiadas perguntas, e é solitária a procura das respostas






 Raquel Serejo Martins

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

domingo, 17 de janeiro de 2016




sós ou em companhia todos os príncipes se foram 
ficamos os de sempre os de outras vezes os que já
 nos conhecemos vou ser breve proponho-te
 um lugar afastado olhar as últimas estrelas 
tomar juntos o primeiro café com leite do domingo
 nada mais posso oferecer-te apenas tenho o que sou 
 além de um erre cinco com assentos abatíveis 






 Pablo García Casado

sábado, 16 de janeiro de 2016




una flor
 no lejos de la noche
 mi cuerpo mudo
 se abre
 a la delicada urgencia del rocío 






Alejandra Pizarnik
 (Foto de Anna O)

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016




Tal como qualquer cidade 
também nós escondemos 
turvos itinerários, edifícios arruinados, 
escuras vielas de rancor ou desejo,
 arrabaldes de medo ou parques para o amor, 
cantos em penumbra onde ocultar segredos, 
praças que nunca visitamos
 e aborrecidos museus onde expor lembranças 
que não interessam a ninguém. 
A nós 
também nos habitam cidadãos terríveis: 
funcionários do tédio, 
mensageiros de moto levando para muito longe
 o pequeno embrulho - primoroso e com laço- 
dos remorsos. 
Viajantes que passam por nós
 com as suas malas a caminho de outros corpos 
e sobretudo
 transeuntes alheios à nossa própria vontade,
 incivis e teimosos; 
têm nomes ridículos
 tal como os sentimentos amor, rancor ou medo
 e especulam- como vulgares comerciantes- 
com o preço
 por metro quadrado do nosso coração. 






 Silvia Ugidos
 (Trad por Joaquim Manuel Magalhães)

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016




Ainda espero o amor 
 como no ringue o lutador caído
 espera a sala vazia 






José Tolentino Mendonça

terça-feira, 12 de janeiro de 2016




Apago todas as mensagens. Menos as tuas. Guardo a tua voz em pequenas doses e, dia sim dia não, ouço-as todas de seguida. 
Sinto-me demasiado incapaz para falar contigo o que quer que seja. Não sei onde estás. Não quero saber. Tenho medo de saber mais do que sei. 






 Pedro Paixão

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016



Olha, dou-te um desgosto de amor, 
 é muito interessante um desgosto;
 enquanto sofres, não te aborreces. 






Henri Jeanson
 (Foto de Natalia Drepina)

Let's dance Mr Bowie








domingo, 10 de janeiro de 2016












Estás ausente. Com a tua partida sobreveio a tua ausência, foi fotografada como há pouco a tua presença. 
A tua vida afastou-se. 
Só a tua ausência fica, agora já sem nenhuma espessura, nenhuma possibilidade de nela abrir um caminho, de nela sucumbir de desejo. 
Já não estás em nenhum lugar precisamente. 
Já não és preferido. 
De ti, já não está ali nada, a não ser esta ausência flutuante, ambulante. 
Já nada acontece a não ser esta ausência afogada em remorso e tão estéril que se pode chorar por ela. 
Não te deixes invadir por este choro, por esta mágoa






 Marguerite Duras (Textos Secretos)

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016




quando o poema é bom
 não te aperta a mão: 
aperta-te a garganta 






 Ana Hatherly
 (Foto de Anna O)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016












Como Miles inclinas-te sobre mim
 Tocas o centro das minhas costas
 Com os dedos 
 teu cabelo agora prateado
 Toca-me como anos - 
 Oh, como o trompete
 Dos teus lábios me lembra o quão 
Pobre tenho sido sem ti






 E. Ethelbert Miller

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016




Sob um céu estranho
 sombras rosas
 sombras
 numa terra estranha 
entre rosas e sombras
 numa água estranha
 a minha sombra 






 Ingeborg Bachmann

domingo, 3 de janeiro de 2016




Sin ti
 me tomo en mis brazos
 y me llevo a la vida
 a mendigar fervor 






 Alejandra Pizarnik
 (Foto de Natalia Drepina)