segunda-feira, 7 de setembro de 2015




Da fossa dos teus anos te tirei do lameiro 
 e mergulhei-te nas águas do meu Verão
 lambi-te mãos cabelo corpo inteiro
 jurei ser minha e tua até mais não. 
 Tu deste-me a volta. Gravaste a fogo brando
 a tua marca na minha pele fina. 
 Renunciei a mim. E eis senão quando
 me começo a afastar da minha sina 
 e de mim própria. A princípio ainda a recordação
 um belo resto chamando por mim. 
 Mas nessa altura estava já dentro de ti
 de mim escondida. Bem me escondeste então. 
 Perdi-me toda em ti, de mim nem cheiro: 
 e então cuspiste-me de corpo inteiro 






 Ulla Hahn

domingo, 6 de setembro de 2015




apaga-me essa luz
 apaga-me essa luz
 apaga-me essa luz
 falsa






quinta-feira, 3 de setembro de 2015




Se tivesse carta, faria sentido comprar um automóvel; 
poderia, então, meter o sofrimento na mala e abandoná-lo num outeiro. 



(estou cansada deste blog)



Miguel Martins
 (Foto de Mariam Sitchinava)

quarta-feira, 2 de setembro de 2015




Entraste na noite
 pelo lado da solidão. 
A ela contas que sais com eles 
a eles que sais com ela. 
Encaminhas o velho Renault 4 
para certo lugar desabitado 
da cidade.
 Fizeste entrar um corpo, 
acenderam um cigarro enquanto 
procuras um retiro pelas sombras. 
Silencias a sua voz quando quer falar-te, 
com um gesto decides
 forma de desejo. 
Entraste num corpo 
pelo lado da solidão.
 Por um instante sentiste-te bem
 mas não o dizes, 
embora não consigas reprimir
 uma carícia no vidro embaciado. 
Atrás da porta que fechou deixa-te 
um rastro de perfume ignóbil
 que aspiras com deleite: 
como o símbolo o queres 
para quando queimar a claridade 
da manhã.





 José Ángel Cilleruelo
(tradução de Joaquim Manuel Magalhães)