quarta-feira, 12 de abril de 2017

adiante




No quarto, nem sequer de hóspedes, no quarto 
escuro das arrumações, fui dar com a minha
 vida, e em que lindo estado. No meio de uma
inqualificável tralha, lá estava ela, ao fundo,
 a minha vida, «encore bien que je te trouve!», 
inqualificável tralha, lá estava ela, ao fundo,tão anémica 
que metia dó. Que situação tão constrangedora, 
pensei, sem lho dar a entender. Que posso
 eu fazer por ti que seja não fugir depressa 
daqui ou enfiar-me logo pelo chão abaixo?
 E tu, minha vida, vá, deixa-te ficar, «tant mal 
que bien», e olha que o quarto também não é tão 
mau assim. E desacompanhada não ficas nunca 
(seria aliás difícil, com toda a tralha em volta...) 
e olha que nestas coisas é como no demais, é como
 em certos casamentos: NÃO DEU NÃO DEU, adiante. 






 Rui Caeiro

terça-feira, 11 de abril de 2017




Quantas vezes estendi a mão e nela guardei a tua ausência?






 Al Berto
 (Foto de Laura Makabresku)

segunda-feira, 10 de abril de 2017

um desamor




É doloroso por vezes chegar a casa, encostar o corpo, 
fechar as pálpebras e sentir que a cabeça é um quarto vazio, 
um desamor só e ferido, queimadura que chega ao coração






 Joaquim Pessoa

quarta-feira, 5 de abril de 2017

o lado errado da noite




Às vezes apetece-me desejar a mim mesmo boa-noite, 
antes de me virar sobre o meu lado direito,
que é o lado em que sempre penso trazer o coração 






 João Miguel Fernandes Jorge

terça-feira, 4 de abril de 2017




Deixei os restos do nosso amor
 num saco de plástico
 no armário debaixo do lava-loiça, 
não cabiam no caixote do lixo. 
E quando levares o lixo,
 presta atenção,
 não é para caixote azul, verde ou amarelo,
 é para o cinzento, lixo doméstico comum, 
indiferenciado, o nosso amor acabado, 
e o carro passa às segundas, quartas e sextas. 






 Raquel Serejo Martins