quarta-feira, 7 de junho de 2017

uma coisa cá dentro




perguntou-me se tinha medo do escuro e eu senti uma coisa cá dentro, 
um consolo, um júbilo, um alívio, a certeza de regressar a casa
a seguir a uma viagem sem fim porque quando uma mulher
 pergunta a um homem se tem medo do escuro
 é sinal que quer ficar com ele para sempre, 
é sinal que quer ficar com ele muito tempo. 






 António Lobo Antunes

terça-feira, 6 de junho de 2017




Antonio Lobo Antunes



Tenho muita admiração pelo indigitado autor, mas julgo que a afirmação não respeita apenas ás mulheres. 
 Porque esquecer um homem inteligente dá, também, um trabalho imenso. 
 E, se houvesse verdadeira igualdade de sexos, seguramente que muitas de nós confessariam
 quantos homens estúpidos esse esquecimento lhes teria custado.
 E suportar homens menos dotados intelectualmente, é capaz de ser muitíssimo indigesto! 
O problema é que os homens só em teoria apreciam mulheres inteligentes. 
 Na prática, isto é no quotidiano, preferem, quase sempre as outras, 
 que dão manifestamente muito menos trabalho.



 Helena Sacadura Cabral





domingo, 4 de junho de 2017

não acredito em regressos




Não creio em retornos
 mas este amargo coração de casas velhas e ruas esburacadas
 late em cada regresso
 sem mais aquelas 
sabendo que o mundo é mau sítio para chegar 

 E volta-se a escrever um poema sobre uma rapariga num aeroporto 
esperando um avião sabe-se lá donde
 ou então escrever sobre a carta que não recebi naquele sábado
 escutando a velha cassete das minhas nostalgias favoritas
 ou ainda sobre os versos roubados a Salinas, Borges, Walcott
 e as tardes de sol no estádio de futebol

 Não acredito em regressos 
mas este seco coração de outra era canta a destempo 
o céu queimando o nome de uma mulher que amei 

 Não creio em retornos 
mas sempre que parto para a tempestade do mundo
 a minha vocação de viajante leva-me, como nos tempos de escuteiro, 
 a deixar pedrinhas e migas de pão
 para não perder o caminho de regresso ao teu corpo.







 Federico Díaz-Granados
 (Trad Albino Matos)

sexta-feira, 2 de junho de 2017




A memória, essa areia movediça onde enterrei a sombra do teu nome, 
 continua a doer.







Al Berto

quinta-feira, 1 de junho de 2017

o que foi passado a limpo




Que peso tem agora a dor nessa balança 
 cujo fiel nem tu consegues
 acertar?






 Armando Silva Carvalho
 (Foto de Katia Chausheva)