quinta-feira, 21 de janeiro de 2016




Hoje é um dia reservado ao veneno 
e às pequeninas coisas
 teias de aranha filigranas de cólera
 restos de pulmão onde corre o marfim
 é um dia perfeitamente para cães
 alguém deu à manivela para nascer o sol 
circular o mau hálito esta cinza nos olhos
 alguém que não percebia nada de comércio
 lançou no mercado esta ferrugem
 hoje não é a mesma coisa
 que um búzio para ouvir o coração
 não é um dia no seu eixo
 não é para pessoas
 é um dia ao nível do verniz e dos punhais 
e esta noite
 uma cratera para boémios
 não é uma pátria
 não é esta noite que é uma pátria
é um dia a mais ou a menos na alma
 como chumbo derretido na garganta
 um peixe nos ouvidos
 uma zona de lava
 hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo
 com sirenes ao crepúsculo
 a trezentos anos do amor a trezentos da morte 
a outro dia como este do asfalto e do sangue
hoje não é um dia para fazer a barba
 não é um dia para homens
 não é para palavras 






 António José Forte