sexta-feira, 23 de setembro de 2016




o silêncio é o único cúmplice das palavras que mentem
 eu sei 
comemos a lucidez do asfalto
 mudámos de morada sempre que foi preciso recomeçar 
vivíamos como nómadas sem nunca nos habituarmos à cidade 
mas nada disto chegou para nos entendermos 
o tempo transformou-se num relógio de argila
 tudo esqueci dessas derivas 






 Al Berto

quinta-feira, 22 de setembro de 2016




Uma vez um homem encontrou duas folhas e entrou em casa
 segurando-as com os braços esticados dizendo aos pais que era uma
 árvore. 
 Ao que eles disseram então vai para o pátio e não cresças na sala 
pois as tuas raízes podem estragar a carpete. 
 Ele disse eu estava a brincar não sou uma árvore e deixou cair as 
folhas. 
 Mas os pais disseram olha é outono 






 Russell Edson

terça-feira, 20 de setembro de 2016




Recomecemos então, as mãos 
palma com palma. 
Diz, não digas, a palavra. 
As palavras terão sentido ainda? 
Haverá outro verão, outro mar
 para as palavras? 
Vão de vaga em vaga, 
de vaga em vaga vão apagadas. 
Seremos nós, tu e eu, as palavras? 
Onde nos levam, neste crepúsculo, 
assim palma a palma, 
de mãos dadas? 







 Eugénio de Andrade

segunda-feira, 19 de setembro de 2016




Tenho uma dor de concha extraviada.
 Uma dor de pedaços que não voltam. 
Eu sou muitas pessoas destroçadas. 







 Manoel de Barros