sexta-feira, 2 de dezembro de 2016




É mais que certo: não sinto a tua falta.
 Fiquei a tarde toda a arrumar os teus papéis, 
a reler as cinco cartas que me foste endereçando 
na semana que perdemos: tu no Alentejo,
 eu debaixo de água. Fui depois regar as rosas 
que deixaste no quintal. Sempre só e sem 
carpir o meu estado (porque não me fazes falta), 
pus o disco da Chavela que me deste no Natal 
e comecei a preparar o teu prato preferido. 
Cozinhar fez-me perder o apetite; por isso
 abri uma garrafa de maduro e não me custa
 confessar-te que não sinto a tua falta. 
Por volta das dez horas, obriguei-me a recusar
 dois convites pra sair (aleguei androfobia)
 e estou neste momento a recortar a tua imagem
 (não me fazes falta) nas fotos que possuo de nós dois, 
de maneira a castigar com o cesto dos papéis
 a inábil idiota que deixou que tu te fosses. 






José Miguel Silva